sexta-feira, julho 18, 2008

Fulgor

O que há no meu peito
Além de carne viva,
Senão a rubra nobreza
Vertida em tensão, trabalho,
Descanso e descaso?

O que existe de muito maior
Do que a superfí­cie dos alvéolos
Senão todo o céu que suspirei?

O que há no meu ventre
Além do gofo e da bílis
Senão a glacial torrente
Precedente a todos os três meses
Do peremptório verão de Sol a pino
Que tua nudez me descarrega?

O que existe no meu corpo
Além dos ossos e da cartilagem rente
Além da descampada relva sacra?

Além de qualquer sentimento coerente
Está uma única nota fisgada

Ela é vociferada esôfago afora
Amplificada na garganta
Salmodiada liricamente
Em uma singela e angelical cantata

O que há em mim além de gente
Senão mágoas, marcas, fulgores e alentos
Noites simples, sonhos, timo,
E um coração que ama?


Safe Creative #0807190837924

2 comentários:

Ana Borghese disse...

Intenso.

Beijo.

Fish-head disse...

compositor E poeta. muito bom.
abraço

Peter