Acabei de escrever o segundo Conto da Mente Elástica:
A Cor da Consciência
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sábado, abril 12, 2008
sexta-feira, março 14, 2008
Por Que o Google Cresce Todo Dia?
É fácil de explicar.
O sonho do Zé da padaria é poder atender todos os consumidores com qualquer item que precise. A localização geográfica em si, o ponto onde as pessoas passam para comprar algo é apenas um embuste para a oportunidade do vendedor.
A localização do imóvel comercial não é o negócio. Mas conveniência da localização é o fator chave para que a tal oportunidade de venda aconteça, com a presença do consumidor. Por que tantas padarias e botecos funcionam em frente a um ponto de ônibus? Infelizmente, a padaria não tem todos os itens do mundo, senão seria de interesse de qualquer pessoa entrar lá para comprar algo. Além disso, é limitado o número de pessoas interessadas em entrar em padarias. Pior ainda é a Lei da Impenetrabilidade da Matéria: dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Como acomodar todos os itens e todas as pessoas do mundo nas finitíssimas prateleiras e corredores de uma padaria?
Simples assim: o McDonalds compra 10 imóveis em um lugar desabitado, e instala uma única loja. As pessoas começam a freqüentar aquela loja. O McDonalds vê os outros imóveis valorizarem pelo aumento de circulação de pessoas. Daí, aluga todas as outras 9 lojas por um valor abusivamente alto. Os donos dos negócios instalados nas lojas, digamos, de cachorro quente e móveis de escritório, suam a camisa pra pagar o aluguel e tirar seu lucro. O McDonalds está comendo os lucros dos cachorros-quentes e dos móveis de escritório, vendendo-os indiretamente. Para quaisquer outros negócios que venham a se instalar naquela zona de 9 lojas, o McDonalds estará lucrando diretamente com um outro negócio que não é diretamente o dele. Ele pode vender qualquer coisa, mas não tudo ao mesmo tempo (varia de acordo com o tipo de loja instalado ao redor do McDonalds). Ele pode ter qualquer tipo de freqüentador, mas não todos ao mesmo tempo (idem para os tipos de loja que acabam surgindo por ali).
O Google FAZ isso. Vende tudo, pra qualquer tipo de pessoa, ao mesmo tempo. Virtualmente, ele inventa um site de utilidade pública. Mas ao invés de vender o serviço (como o Gmail, vários outros serviços de email são assinados e cobram uma taxa periódica), ele o fornece DE GRAÇA. E-mail com 6 gigabites de espaço (dá pra guardar a narrativa da minha vida iteira lá em formato de texto) é de interesse de qualquer médio internauta.
Com o serviço prestado, qualquer local virtual do Google (o site de busca, ou o Gmail, por exemplo) é bastante conveniente. Ele tem milhões de freqüentadores que verificam aquela telinha a cada 10 minutos, umas 8 horas por dia, sei lá.
Dado que o local é abusivamente conveniente, falta apenas o produto. E o que o Google vende? Resposta: o produto dos outros. Qualquer produto.
O Google subverteu a lógica tradicional das lojas. É como se pessoas do mundo inteiro freqüentassem a "lojinha Google" porque lá estão dando chocolate de graça, 24 horas por dia, todos os dias da semana. Daí, os agentes do Google ficam ouvindo as conversas de todos os milhões de freqüentadores. Ele tem um vendedor pra cada pessoa que entra nela. Esse vendedor fala a língua da pessoa, entende o assunto, e logo em seguida oferece um produto, intrometendo-se.
Imagine a cena abaixo:
Henrique entra na lojinha do Google e encontra Mateus, seu amigo de infância. Um terceiro rapaz, empregado da loja, de nome Ricardo, que tem cabelos grandes, usa óculos e uma camisa do Iron Maiden - o vendedor nada perfeito - chega perto deles e ouve atentamente o assunto:
- Fala, meu compadre! - Henrique.
- Fala, Bro! - Mateus.
- E aí, foi bem de viagem?
- Pô, do Centro pra Santa Cruz é chão.
De repente, o Ricardo, se intrometendo:
- Ahn... Com licença. Você gostaria de viajar? Tenho aqui um pacote inesquecível para você e sua família.
- E sua irmã? - Henrique.
- Ah, está ótima, chegou mortinha de cansaço - Mateus.
- Que tal um relaxante muscular pra vocês? - Ricardo.
- Olha, semana que vem vamos ao show do Paralamas, tá a fim? - Henrique
- Excelente! Vambora! - Mateus
- Olha, tenho ingressos para o show do Paralamas a dez Reais. - Ricardo.
- Ôpa, Ricardo. Como é que é o esquema? - Mateus.
- Toma aqui esse endereço de Internet. É lá. - Ricardo.
- Pô, demorou! Maior adianto, aê... - Mateus.
Mateus sai da lojinha Google, onde fica seu amigo Henrique1, aparentemente falando com as paredes, e Ricardo por perto, sempre a oferecer as coisas mais esdrúxulas. Dirige-se à outra lojinha da Ticketronics, onde compra de William um ingresso a dez Reais para o show do Paralamas:
- Ô, meu velho, tá aqui a tua grana - Mateus.
- Beleza, bro, tá aqui teu ingresso - William.
Com a saída de Mateus, William se vira para Tatiane, sua colega de trabalho:
- Ô Tatiane, leva aqui um Real lá pro Ricardo. Manda ele oferecer pra mais cem pessoas os ingressos pros Paralamas a dez Reais.
O sonho do Zé da padaria é poder atender todos os consumidores com qualquer item que precise. A localização geográfica em si, o ponto onde as pessoas passam para comprar algo é apenas um embuste para a oportunidade do vendedor.
A localização do imóvel comercial não é o negócio. Mas conveniência da localização é o fator chave para que a tal oportunidade de venda aconteça, com a presença do consumidor. Por que tantas padarias e botecos funcionam em frente a um ponto de ônibus? Infelizmente, a padaria não tem todos os itens do mundo, senão seria de interesse de qualquer pessoa entrar lá para comprar algo. Além disso, é limitado o número de pessoas interessadas em entrar em padarias. Pior ainda é a Lei da Impenetrabilidade da Matéria: dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Como acomodar todos os itens e todas as pessoas do mundo nas finitíssimas prateleiras e corredores de uma padaria?
Simples assim: o McDonalds compra 10 imóveis em um lugar desabitado, e instala uma única loja. As pessoas começam a freqüentar aquela loja. O McDonalds vê os outros imóveis valorizarem pelo aumento de circulação de pessoas. Daí, aluga todas as outras 9 lojas por um valor abusivamente alto. Os donos dos negócios instalados nas lojas, digamos, de cachorro quente e móveis de escritório, suam a camisa pra pagar o aluguel e tirar seu lucro. O McDonalds está comendo os lucros dos cachorros-quentes e dos móveis de escritório, vendendo-os indiretamente. Para quaisquer outros negócios que venham a se instalar naquela zona de 9 lojas, o McDonalds estará lucrando diretamente com um outro negócio que não é diretamente o dele. Ele pode vender qualquer coisa, mas não tudo ao mesmo tempo (varia de acordo com o tipo de loja instalado ao redor do McDonalds). Ele pode ter qualquer tipo de freqüentador, mas não todos ao mesmo tempo (idem para os tipos de loja que acabam surgindo por ali).
O Google FAZ isso. Vende tudo, pra qualquer tipo de pessoa, ao mesmo tempo. Virtualmente, ele inventa um site de utilidade pública. Mas ao invés de vender o serviço (como o Gmail, vários outros serviços de email são assinados e cobram uma taxa periódica), ele o fornece DE GRAÇA. E-mail com 6 gigabites de espaço (dá pra guardar a narrativa da minha vida iteira lá em formato de texto) é de interesse de qualquer médio internauta.
Com o serviço prestado, qualquer local virtual do Google (o site de busca, ou o Gmail, por exemplo) é bastante conveniente. Ele tem milhões de freqüentadores que verificam aquela telinha a cada 10 minutos, umas 8 horas por dia, sei lá.
Dado que o local é abusivamente conveniente, falta apenas o produto. E o que o Google vende? Resposta: o produto dos outros. Qualquer produto.
O Google subverteu a lógica tradicional das lojas. É como se pessoas do mundo inteiro freqüentassem a "lojinha Google" porque lá estão dando chocolate de graça, 24 horas por dia, todos os dias da semana. Daí, os agentes do Google ficam ouvindo as conversas de todos os milhões de freqüentadores. Ele tem um vendedor pra cada pessoa que entra nela. Esse vendedor fala a língua da pessoa, entende o assunto, e logo em seguida oferece um produto, intrometendo-se.
Imagine a cena abaixo:
Henrique entra na lojinha do Google e encontra Mateus, seu amigo de infância. Um terceiro rapaz, empregado da loja, de nome Ricardo, que tem cabelos grandes, usa óculos e uma camisa do Iron Maiden - o vendedor nada perfeito - chega perto deles e ouve atentamente o assunto:
- Fala, meu compadre! - Henrique.
- Fala, Bro! - Mateus.
- E aí, foi bem de viagem?
- Pô, do Centro pra Santa Cruz é chão.
De repente, o Ricardo, se intrometendo:
- Ahn... Com licença. Você gostaria de viajar? Tenho aqui um pacote inesquecível para você e sua família.
- E sua irmã? - Henrique.
- Ah, está ótima, chegou mortinha de cansaço - Mateus.
- Que tal um relaxante muscular pra vocês? - Ricardo.
- Olha, semana que vem vamos ao show do Paralamas, tá a fim? - Henrique
- Excelente! Vambora! - Mateus
- Olha, tenho ingressos para o show do Paralamas a dez Reais. - Ricardo.
- Ôpa, Ricardo. Como é que é o esquema? - Mateus.
- Toma aqui esse endereço de Internet. É lá. - Ricardo.
- Pô, demorou! Maior adianto, aê... - Mateus.
Mateus sai da lojinha Google, onde fica seu amigo Henrique1, aparentemente falando com as paredes, e Ricardo por perto, sempre a oferecer as coisas mais esdrúxulas. Dirige-se à outra lojinha da Ticketronics, onde compra de William um ingresso a dez Reais para o show do Paralamas:
- Ô, meu velho, tá aqui a tua grana - Mateus.
- Beleza, bro, tá aqui teu ingresso - William.
Com a saída de Mateus, William se vira para Tatiane, sua colega de trabalho:
- Ô Tatiane, leva aqui um Real lá pro Ricardo. Manda ele oferecer pra mais cem pessoas os ingressos pros Paralamas a dez Reais.
sexta-feira, março 07, 2008
Dezessete Bilhões de Anos
Naquele dia, sua casa estava cheia. Estrelas, astros, vias lácteas, todo mundo estava lá. O homem escuro, de barbas brancas, pesadas, das profundezas de seus dezessete bilhões de anos, se recusava a soprar as velinhas. Ele olhava em seu interior, e via na euforia dos pequeninos seres que dentro dele viviam um motivo pra comemorar: era seu aniversário.
Será que eles não cansavam? Ficavam a dar voltas em seu Estomacal Sistema Solar, contando uma parametrização de unidades de tempo totalmente harbitrárias. Yugas, anos, nanossegundos, bits, luas. Em cada momento era uma coisa. Eles não se cansavam.
Sentiu frio. Colocou seu casaco de matéria escura. As barbas estavam de molho há incontáveis giros do Sol. Incontáveis mesmo. Isso é coisa de um povo da Terra. Agora, sentia pena.
Havia muitas coisas inexplicáveis aos seres intrínsecos deste ser. E muitas coisas inexplicáveis a este ser sobre os seres intrínsecos. Por mais que fosse onipotente, não os controlava. Por mais que fosse onisciente, haviam segredos indecifráveis. Por mais que fosse onipresente, não era notado.
Entristecia-se. Seus remédios não funcionavam mais. Estava com dezessete bilhões de anos, e nada mais parecia resolver a tendência destes micróbios de se autodestruírem. Parecia muito com aquilo que eles próprios inventaram, que se chamava Câncer.
Cada criação boa correspondia a uma ruim. Viviam segundo as leis do equilíbrio, do Ying e do Yang, que descobriram, mas sobre à qual fechavam os olhos e fingiam nada saber.
"Estes serezinhos que vivem dentro de mim. São uns insanos. Ao taparem os ouvidos à minha voz, criam seu próprio circo de loucura, enxergando vários super-seres que podem governar suas vontades espirituais. Grande necessidade espiritual de merda, estas coisas todas que lhes aparecem não existem. Eles não sabem que estão em mim. Cavam-me buracos, de dentro pra fora. Irrompem em explosões. Desnutrem parte do meu corpo... Eu estou ficando obsoleto."
Olhando no espelho, vê um outro universo: o de sua imaginação.
"Eles foram todos feitos segundo minha vontade, à minha imagem e semelhança. E eu era tão bom, tão íntegro, tão perfeito. Eu era tudo o que eles precisavam. Eu era o centro de tudo. Eu era o mais poderoso. Eles eram tão parecidos comigo. Eu os fiz exatamente assim, como eu. Justo eu, que sou tão belo, tão majestoso, tão divino..."
E, piscando, afasta-se do espelho, abaixando lentamente seu olhar, como que resignado.
"Onde foi que eu errei?"

Será que eles não cansavam? Ficavam a dar voltas em seu Estomacal Sistema Solar, contando uma parametrização de unidades de tempo totalmente harbitrárias. Yugas, anos, nanossegundos, bits, luas. Em cada momento era uma coisa. Eles não se cansavam.
Sentiu frio. Colocou seu casaco de matéria escura. As barbas estavam de molho há incontáveis giros do Sol. Incontáveis mesmo. Isso é coisa de um povo da Terra. Agora, sentia pena.
Havia muitas coisas inexplicáveis aos seres intrínsecos deste ser. E muitas coisas inexplicáveis a este ser sobre os seres intrínsecos. Por mais que fosse onipotente, não os controlava. Por mais que fosse onisciente, haviam segredos indecifráveis. Por mais que fosse onipresente, não era notado.
Entristecia-se. Seus remédios não funcionavam mais. Estava com dezessete bilhões de anos, e nada mais parecia resolver a tendência destes micróbios de se autodestruírem. Parecia muito com aquilo que eles próprios inventaram, que se chamava Câncer.
Cada criação boa correspondia a uma ruim. Viviam segundo as leis do equilíbrio, do Ying e do Yang, que descobriram, mas sobre à qual fechavam os olhos e fingiam nada saber.
"Estes serezinhos que vivem dentro de mim. São uns insanos. Ao taparem os ouvidos à minha voz, criam seu próprio circo de loucura, enxergando vários super-seres que podem governar suas vontades espirituais. Grande necessidade espiritual de merda, estas coisas todas que lhes aparecem não existem. Eles não sabem que estão em mim. Cavam-me buracos, de dentro pra fora. Irrompem em explosões. Desnutrem parte do meu corpo... Eu estou ficando obsoleto."
Olhando no espelho, vê um outro universo: o de sua imaginação.
"Eles foram todos feitos segundo minha vontade, à minha imagem e semelhança. E eu era tão bom, tão íntegro, tão perfeito. Eu era tudo o que eles precisavam. Eu era o centro de tudo. Eu era o mais poderoso. Eles eram tão parecidos comigo. Eu os fiz exatamente assim, como eu. Justo eu, que sou tão belo, tão majestoso, tão divino..."
E, piscando, afasta-se do espelho, abaixando lentamente seu olhar, como que resignado.
"Onde foi que eu errei?"
terça-feira, janeiro 15, 2008
Os Filhos de Eleonor
Eleonor teve dois filhos que ama, mas que contra sua vontade não têm metade da normalidade das crianças dos vizinhos. E nem um centésimo disso.
O primeiro deles, Medhros, tem a boca completamente nua; e no lugar dos cabelos possui longos e finos dentes, apontados para cima, como se houvesse uma enorme boca perenamente aberta, cuja circunferência segue a coroa de sua cabeça. Essas pinçudas presas permanecem em um lento movimento, como o de uma respiração, dando ao garoto mais velho uma aparência simplesmente arrepiante. Apesar de seus 15 anos, seu falar mais parece o de um velho que colocou uma esponja bem macia na boca. Tem um estômago poderoso, uma traquéia elástica, um esôfago que mais parece uma cobra de tão controlado, sendo capaz de engolir as coisas mais duvidosas.
Em certa feita, enquanto fazia graça para que sua mãe não insistisse que comesse brócolis, Medhros subiu em uma mangueira e comeu folha por folha. Passou dez horas catando cada um dos brincos verdes da árvore, deixando os galhos e os frutos intactos. Ao ver seu filho preso na árvore, com a cintura da largura de um fusca sem pneus, Eleonor decidiu que nunca mais pediria que comesse, porque comia bem demais quando queria.
A mangueira, com medo de sofrer um novo assalto do garoto, nunca mais deu uma folhinha. Nem um único e pequenino brotinho verde lhe saiu da ponta do galho mais fino da parte mais alta da árvore. Estava apavorada. Seus frutos ressecaram, não era mais capaz de se sustentar. Secou e se tornou uma árvore assustadora (mais assustada do que assustadora, na verdade).
Uma outra vez, durante uma briga com um de seus vizinhos, Nestor, Medhros arremessou-se de cabeça contra o rapazinho. Ele recebeu tantas dentadas na região pélvica que nunca mais pensaria em sexualidade na sua vida. Medhros arrancou as bolinhas do garotinho com muita acuidade, guardando-as nos bolsos para mais tarde montar um bate-bolinhas, envoltando-as com resina e pendurando ambas nas pontas de uma cordinha. Prendeu um anel de ferro na metade do comprimento da fina corda, e então punha-se a segurar o anel de ferro, balançando as bolinhas-de-garoto-de-resina uma contra a outra. Toda vez que brincava com o objeto, Nestorzinho sofria dores terríveis, tais que não conseguia levantar-se de onde estivesse, e nem mesmo deixar sua posição fetal característica, na qual passava a maior parte do tempo, vide seu trauma anterior.
O segundo filho de Eleonor eu não ouso descrever, e acho melhor parar a história por aqui, antes que ele descubra que estou pensando nele.

O primeiro deles, Medhros, tem a boca completamente nua; e no lugar dos cabelos possui longos e finos dentes, apontados para cima, como se houvesse uma enorme boca perenamente aberta, cuja circunferência segue a coroa de sua cabeça. Essas pinçudas presas permanecem em um lento movimento, como o de uma respiração, dando ao garoto mais velho uma aparência simplesmente arrepiante. Apesar de seus 15 anos, seu falar mais parece o de um velho que colocou uma esponja bem macia na boca. Tem um estômago poderoso, uma traquéia elástica, um esôfago que mais parece uma cobra de tão controlado, sendo capaz de engolir as coisas mais duvidosas.
Em certa feita, enquanto fazia graça para que sua mãe não insistisse que comesse brócolis, Medhros subiu em uma mangueira e comeu folha por folha. Passou dez horas catando cada um dos brincos verdes da árvore, deixando os galhos e os frutos intactos. Ao ver seu filho preso na árvore, com a cintura da largura de um fusca sem pneus, Eleonor decidiu que nunca mais pediria que comesse, porque comia bem demais quando queria.
A mangueira, com medo de sofrer um novo assalto do garoto, nunca mais deu uma folhinha. Nem um único e pequenino brotinho verde lhe saiu da ponta do galho mais fino da parte mais alta da árvore. Estava apavorada. Seus frutos ressecaram, não era mais capaz de se sustentar. Secou e se tornou uma árvore assustadora (mais assustada do que assustadora, na verdade).
Uma outra vez, durante uma briga com um de seus vizinhos, Nestor, Medhros arremessou-se de cabeça contra o rapazinho. Ele recebeu tantas dentadas na região pélvica que nunca mais pensaria em sexualidade na sua vida. Medhros arrancou as bolinhas do garotinho com muita acuidade, guardando-as nos bolsos para mais tarde montar um bate-bolinhas, envoltando-as com resina e pendurando ambas nas pontas de uma cordinha. Prendeu um anel de ferro na metade do comprimento da fina corda, e então punha-se a segurar o anel de ferro, balançando as bolinhas-de-garoto-de-resina uma contra a outra. Toda vez que brincava com o objeto, Nestorzinho sofria dores terríveis, tais que não conseguia levantar-se de onde estivesse, e nem mesmo deixar sua posição fetal característica, na qual passava a maior parte do tempo, vide seu trauma anterior.
O segundo filho de Eleonor eu não ouso descrever, e acho melhor parar a história por aqui, antes que ele descubra que estou pensando nele.
quarta-feira, março 28, 2007
A Normalidade Do Lado De Lá
No momento em que descia as escadas rolantes, a visão foi interessante e aterradora, ao mesmo tempo: do outro lado da parede de vidro, outra escada rolante, idêntica, disposta simetricamente, em funcionamento. Era também uma escada de descida, como a minha, mas estava completamente vazia de passageiros.
Funcionando de maneira síncrona, a impressão que dava no canto dos olhos era a de que uma legião de espectros translúcidos com suas bagagens desciam naquela escada - a seção de almas do aeroporto. As imagens translúcidas chegavam ao final da escada e começavam sua caminhada para a área de recuperação de bagagens, como se tudo fosse muito normal por lá.
Ao chegar eu mesmo no final da minha escada, do meu lado da parede de vidro, me vi - ou à minha recém-inventada alma-gêmea translúcida - do outro lado da parede. Também lá aquele espectro me olhava, imitando meus movimentos, como em um espelho. Também ela me virou as costas e foi buscar suas bagagens, me olhando nos olhos até o último instante. Naquele momento, me fiz a seguinte pergunta: "Como as almas são levadas para o céu?", e mais tarde, a pergunta: "Quantas almas têm subido, e quantas têm descido, ultimamente?". Mais tarde, a ironia conclusiva: "Se reencarnação existisse, talvez também um programa de milhagens pras inúmeras viagens que fazemos. O preço da passagem e estadia talvez explicasse as condições de nossas circunstâncias aqui".
Descartei as perguntas e conclusões, porque todas elas seriam válidas também naquela outra normalidade, através da parede de vidro. Mesmo assim, só voltei a mim, completamente, ao checar meus bolsos, quando saí do aeroporto - a esponja para banho que esqueci de colocar na bagagem me deu a certeza, de lá do fundinho do último compartimento da bermuda, de que eu ainda precisava tomar pelo menos mais um banho, se possível.
Ela trazia pra mim, naquele momento, toda a normalidade do lado de cá daquela mesma parede.
Funcionando de maneira síncrona, a impressão que dava no canto dos olhos era a de que uma legião de espectros translúcidos com suas bagagens desciam naquela escada - a seção de almas do aeroporto. As imagens translúcidas chegavam ao final da escada e começavam sua caminhada para a área de recuperação de bagagens, como se tudo fosse muito normal por lá.
Ao chegar eu mesmo no final da minha escada, do meu lado da parede de vidro, me vi - ou à minha recém-inventada alma-gêmea translúcida - do outro lado da parede. Também lá aquele espectro me olhava, imitando meus movimentos, como em um espelho. Também ela me virou as costas e foi buscar suas bagagens, me olhando nos olhos até o último instante. Naquele momento, me fiz a seguinte pergunta: "Como as almas são levadas para o céu?", e mais tarde, a pergunta: "Quantas almas têm subido, e quantas têm descido, ultimamente?". Mais tarde, a ironia conclusiva: "Se reencarnação existisse, talvez também um programa de milhagens pras inúmeras viagens que fazemos. O preço da passagem e estadia talvez explicasse as condições de nossas circunstâncias aqui".
Descartei as perguntas e conclusões, porque todas elas seriam válidas também naquela outra normalidade, através da parede de vidro. Mesmo assim, só voltei a mim, completamente, ao checar meus bolsos, quando saí do aeroporto - a esponja para banho que esqueci de colocar na bagagem me deu a certeza, de lá do fundinho do último compartimento da bermuda, de que eu ainda precisava tomar pelo menos mais um banho, se possível.
Ela trazia pra mim, naquele momento, toda a normalidade do lado de cá daquela mesma parede.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Resumo do Carnaval
Oi, Andréa,
Os arquivos do mccp estão todos publicados no QP, enfim.
Ontem cortei meu pé lá na casa da minha mãe, em um acidente que envolveu uma enorme garrafa de água de vidro e a escada do segundo pro terceiro andar (além de mim mesmo, claro)... Dados o tamanho da garrafa e a altura de onde tropecei, concluo que tenha sido sorte por só o meu pé direito ter ficado ferido - todos os dedos estão onde deveriam estar, graças a Deus. Infelizmente não estou conseguindo andar direito, ainda... O que importa mesmo é que mais tarde a Manu conseguiu fazer o que eu estava tentando e não consegui, e por isso a Pétala, cachorrinha da minha irmã, não morreu de sede.
Hoje eu iria pra Petro, mas devido a essa infelicidade de fim de Carnaval - cujas palavras-chave foram "dormir", "nuvens", "sobriedade", "todos viajaram menos eu" e "grand finale em um acidente doméstico na quarta feira de cinzas"- eu vou ficar aos cuidados da minha mãe, e os requisitos estarão sob meus cuidados, pelo laptop. Qualquer coisa, me liga.
Bjs,
Rodrigo.

PS: Leiam o Guia do Mochileiro das Galáxias. O estilo do Douglas Adams é único, e pra quem gosta de inferências humorísticas, tá aí uma mostra. Ele fala sobre A Vida, o Universo e Tudo Mais, e te coloca em um Vortex da Perspectiva Total, onde você começa a ter uma noção exata do tamanho do Universo. Infelizmente, apenas desse Universo.
Os arquivos do mccp estão todos publicados no QP, enfim.
Ontem cortei meu pé lá na casa da minha mãe, em um acidente que envolveu uma enorme garrafa de água de vidro e a escada do segundo pro terceiro andar (além de mim mesmo, claro)... Dados o tamanho da garrafa e a altura de onde tropecei, concluo que tenha sido sorte por só o meu pé direito ter ficado ferido - todos os dedos estão onde deveriam estar, graças a Deus. Infelizmente não estou conseguindo andar direito, ainda... O que importa mesmo é que mais tarde a Manu conseguiu fazer o que eu estava tentando e não consegui, e por isso a Pétala, cachorrinha da minha irmã, não morreu de sede.
Hoje eu iria pra Petro, mas devido a essa infelicidade de fim de Carnaval - cujas palavras-chave foram "dormir", "nuvens", "sobriedade", "todos viajaram menos eu" e "grand finale em um acidente doméstico na quarta feira de cinzas"- eu vou ficar aos cuidados da minha mãe, e os requisitos estarão sob meus cuidados, pelo laptop. Qualquer coisa, me liga.
Bjs,
Rodrigo.
PS: Leiam o Guia do Mochileiro das Galáxias. O estilo do Douglas Adams é único, e pra quem gosta de inferências humorísticas, tá aí uma mostra. Ele fala sobre A Vida, o Universo e Tudo Mais, e te coloca em um Vortex da Perspectiva Total, onde você começa a ter uma noção exata do tamanho do Universo. Infelizmente, apenas desse Universo.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
Construindo O Futuro De Nós (A Que Se Resume O Amor)
Naquele dia que vi, eu era apenas um velho. Foi a pior das coisas, e também a mais maravilhosa de se ver. Eu e você éramos amantes, ainda. Amantes de vida inteira. O momento do "ter conhecido" já não passava de uma poeira, perto da mágica de uma vida inteira juntos. A história do primeiro beijo já havia sido contada para mais de mil pessoas.
Você, muito velhinha. Eu, também. Você, tão querida por mim quanto eu por você. Esta prosa revela o que vi de uma manhã pra lá de amanhã, no momento do agora, em que te abracei. Não fala por sons, não fala por mim. Fala por nós, aquela visão.
Naquele amanhã, que não quero esquecer, mas que também não quero viver, éramos nós dois na cama, de cama. Um número incontável de netos e bisnetos de nossos cinco ou quatro filhos nos queriam bem em seus quartos de crianças e de casados (cada um na sua casa, cada um na sua casa). Naquela manhã, já não parecíamos eternos. Pelo contrário, pareceremos quase atingir bem o finalzinho, até. Pareceremos estar a um passo de nos tornarmos lembrança. Tudo o que víamos à frente terá sido deixado para trás. Será nosso momento, nosso último suspiro. E ainda assim, naquela mesma manhã, pareceremos ser capazes de nos amar para sempre.
No agora - me vendo como no amanhã - eu me lembro de você como lhe vejo neste instante: em sua juventude e beleza plenas, ternas, e na minha memória, eternas. Naquele dia eu serei o passado do agora, e também serei muito mais do futuro que nos aguardaria. Naquele dia eu me lembrava disso tudo e das promessas. Também lembrava de como o tempo escorreu feito areia, e de como haveríamos nos tornado tão relapsos com a nossa obrigação de viver.
Não havia tempo. Lá eu sou o futuro, fui o presente e serei o passado. Ou então eu era o futuro, porque serei o presente do passado que sou.
Com os meus olhos já não tão bons eu me recusava a acreditar que a oportunidade que tivemos de viver bem fora jogada no mar, fora deixada evaporar. O que me acabrunhava nessa gelatinosa e instável possibilidade de futuro era a chance de não termos aproveitado nosso passado. O que passou, passou. Mas e o que tínhamos de ter passado? Não deixemos, eu e você, que a vida nos atrapalhe com mazelas distraidoras.
Nesse dia eu ficarei completamente insatisfeito. A Deus, que me deu essa visão, eu agradeço, sinceramente, porque após todos estes anos à frente, além dos quais viajei, posso concluir que o que desejo - e choro por isso - é um futuro contigo, sem arrependimento por não ter vivido juntos o que devemos no hoje.
Tudo a que se resume o amor é vivê-lo de momentos amorosos. O que não é amoroso não pode ser chamado amor. É acrescentado de pequenos gestos, pequenas pitadas, dia após dia, para que seja mais amor amanhã do que ontem. Para que o anteontem não seja mais sequer reconhecido amor, e o futuro seja vislumbrado amor perfeito.

Manu, essa é pra você.
Você, muito velhinha. Eu, também. Você, tão querida por mim quanto eu por você. Esta prosa revela o que vi de uma manhã pra lá de amanhã, no momento do agora, em que te abracei. Não fala por sons, não fala por mim. Fala por nós, aquela visão.
Naquele amanhã, que não quero esquecer, mas que também não quero viver, éramos nós dois na cama, de cama. Um número incontável de netos e bisnetos de nossos cinco ou quatro filhos nos queriam bem em seus quartos de crianças e de casados (cada um na sua casa, cada um na sua casa). Naquela manhã, já não parecíamos eternos. Pelo contrário, pareceremos quase atingir bem o finalzinho, até. Pareceremos estar a um passo de nos tornarmos lembrança. Tudo o que víamos à frente terá sido deixado para trás. Será nosso momento, nosso último suspiro. E ainda assim, naquela mesma manhã, pareceremos ser capazes de nos amar para sempre.
No agora - me vendo como no amanhã - eu me lembro de você como lhe vejo neste instante: em sua juventude e beleza plenas, ternas, e na minha memória, eternas. Naquele dia eu serei o passado do agora, e também serei muito mais do futuro que nos aguardaria. Naquele dia eu me lembrava disso tudo e das promessas. Também lembrava de como o tempo escorreu feito areia, e de como haveríamos nos tornado tão relapsos com a nossa obrigação de viver.
Não havia tempo. Lá eu sou o futuro, fui o presente e serei o passado. Ou então eu era o futuro, porque serei o presente do passado que sou.
Com os meus olhos já não tão bons eu me recusava a acreditar que a oportunidade que tivemos de viver bem fora jogada no mar, fora deixada evaporar. O que me acabrunhava nessa gelatinosa e instável possibilidade de futuro era a chance de não termos aproveitado nosso passado. O que passou, passou. Mas e o que tínhamos de ter passado? Não deixemos, eu e você, que a vida nos atrapalhe com mazelas distraidoras.
Nesse dia eu ficarei completamente insatisfeito. A Deus, que me deu essa visão, eu agradeço, sinceramente, porque após todos estes anos à frente, além dos quais viajei, posso concluir que o que desejo - e choro por isso - é um futuro contigo, sem arrependimento por não ter vivido juntos o que devemos no hoje.
Tudo a que se resume o amor é vivê-lo de momentos amorosos. O que não é amoroso não pode ser chamado amor. É acrescentado de pequenos gestos, pequenas pitadas, dia após dia, para que seja mais amor amanhã do que ontem. Para que o anteontem não seja mais sequer reconhecido amor, e o futuro seja vislumbrado amor perfeito.
Manu, essa é pra você.
quarta-feira, outubro 04, 2006
Acabou o Suco
Esse conto é muito, muito antigo. Deve fazer um ano e meio que o escrevi. Em todo o caso, ou eu não o publiquei anteriormente, ou o blogger simplesmente perdeu um post. Vamos lá:
Tudo começou quando acabou o suco de goiaba de caixinha. Eram dez horas da manhã, em pleno feriado no Rio de Janeiro. Vida de solteiro morando sozinho é assim: você acorda, faz algumas coisas e só vai tomar banho lá pelo meio dia, quando sente fome e quer almoçar mas está com preguiça de fazer comida. No meu caso, não é preguiça. É uma imperícia da peste: eu não sei cozinhar, e também não me interessa aprender.
Há quem me pergunte como eu consigo me virar na vida social, quando rola um rateio para o almoço na casa de um amigo. O que eu faço? Como participo? Ora, lavo louça. Não ligo para isso, e até gosto. Mas em casa, sozinho, fazer almoço e lavar louça? Definitivamente, não é para mim.
Voltando. Lá estava eu, na frente do computador editando uns textos - porque nestes dias me surgiram algumas idéias, e tenho colocado tudo no papel - quando fui até a cozinha pegar algo para beber. Pus um copo de suco de goiaba, que acabou com o que havia dentro da caixinha. Depois de matar o suco, a caixinha ficou ali, sozinha em cima da pia, com um vazio por dentro que dava até pena. Decidi que ela precisava ir pro lixo, e se juntar às outras como ela, indo pro "céu das caixinhas vazias de suco". Ela havia cumprido bem seu papel de matadora de fome das horas vagas, e merecia um funeral. Quem sabe se numa encarnação posterior não voltasse reciclada, e misturada às almas de outros produtos que também serviram dignamente aos seus consumidores?
Peguei a caixa, e olhei para o caixão - o cesto de lixo. Estava cheio. Impossível colocar qualquer coisa a mais. Lembrei que havia ficado de jogar aquilo tudo no fora da próxima vez que saísse. Mas, como todo cara relapso que se preze, eu havia esquecido. Por uns quatro dias, eu havia esquecido, e sempre insistia em entulhar mais coisas no cesto, pobrezinho. Já não conseguia nem mais fechar a tampa. Era a hora de um ato heróico: levaria o lixo para a lixeira do prédio, e depois colocaria um saco de lixo novinho em folha, no qual a caixa de suco de goiaba seria a primeira a descansar em paz.
Para o leitor de boa memória, é desnecessário dizer que eu estava como quem havia acabado de acordar, não é mesmo? "Pois é... Aí tem um problema", como diria Cassino - meu chefe - sempre com uma boa inspiração e visão de inúmeros lances à frente da minha. Era muito claro: como iria atravessar o corredor no estado em que me encontrava? Uma blusa azul-desbotada que parecia ter sido mastigada, cabelos para o ar e um short velho que doía? Resolvi dar um "jeitinho rápido", pois, como todo mundo sabe, quando você está em situação desprivilegiada no corredor do seu prédio, todos os vizinhos saem para te ver.
Fui até o banheiro, me olhei no espelho e pensei: nem a Medusa teria coragem de me olhar nos olhos. Passei uma água bem de leve no cabelo, peguei uma escova e lá fui eu lutar contra milhares de fios. Bom, pelo menos são menos do que quando eu era mais novo - acho que eles estão me abandonando de insatisfação. Quando enfim terminei, percebi que não parecia nem que tinha tentado pentear. Mas já estava bem melhor. Precisava de mais recursos. Um boné, quem sabe? Essa idéia, que está sempre entre as primeiras da fila de idéias salvadoras, é sempre ridícula, ainda mais quando você só quer atravessar o corredor. Para mim, seria pior se me vissem de boné, porque não haveria maneira de esconder o quanto estava preocupado, e detesto quando isso acontece, ainda mais no que tange minha beleza natural, da qual tenho tanto orgulho.
A idéia do boné foi pelo ralo - Há uns 6 anos, data do meu último boné, eu acho. Comecei a enganchar uma cabelo no outro, para pelo menos mantê-los baixos o suficiente. Assim, quem me visse de longe não ia notar nada, a não ser que fossem aves de rapina. Depois de uns minutos tentando ajeitar meu visual, me peguei pensando em como me preocupara com aquela trajetória ridícula de menos de dez metros, entre a porta do meu apartamento e a lixeira, no corredor.
"Mas era ida e volta", pensei. Agora é a hora de você me perguntar se sou algum lunático. Eu estava prevendo que todo o tráfego pedestre de Botafogo passaria por aquele corredorzinho, e que a distância até a lixeira era a de uma maratona. "Ida e volta", pensei novamente. "Mas e se me virem de costas? Eu não sei como está meu cabelo desse ângulo." Meu ego agonizava, tremendo encolhido ali, no canto do banheiro, com olhos vidrados e grandes. E percebi o quanto somos vuneráveis às condições tão normais de temperatura e pressão que nos assolam todos os dias.
Subitamente, um instinto heróico me tomou o espírito. "Eu vou do jeito que estou, e dane-se (dano-me) se alguém me vir assim". Afinal, a caixinha de suco de goiaba já estava se sentindo abandonada com o meu descaso. Corri para a cozinha, dei um nó no saco de lixo, tirei-o de dentro da lata e abri a porta, tudo de uma vez. A caixinha pulou de alegria, como um plebeu que vê o He-Man chegando para salvar a vila das maldades do poderoso Esqueleto. Um infortúnio, porque pareço mais com o vilão.
No meu som, tocava muito alto o álbum Breathless do Camel o tempo todo. Quando entrou a música Summer Lightning, me enchi de inspiração. Olhei o corredor, mas não parecia haver qualquer sinal de inimigos ou transeuntes. Nem mesmo as águias ou falcões. Pensei: "os inimigos sempre armam as emboscadas nas curvas dos corredores". Sorrateiramente, dei os primeiros passos para dentro daquele labirinto. Me sentia um herói de O Senhor dos Anéis. Mais especificamente o Frodo, que é mais fraco e tolo. Torcia mesmo que houvesse somente orcs no corredor, pois pelo menos são mais feios do que eu, e não poderiam zombar de minhas madeixas despenteadas. Com um passo após o outro, me aproximava da garganta do gigante (a lixeira) que engoliria todo o lixo com seu apetite voraz.
Suava frio. Durante todo o caminho, me perguntava quando os inimigos saltariam do nada para caçoar de mim, ou quando aquela vizinha gatinha sairia de seu apartamento e me veria novamente numa situação embaraçosa. Da primeira vez em que a vi, eu estava saindo para trabalhar e não notei que ela estava no corredor. Imitava um solo de bateria, com os barulhos, gestos e tudo mais. Foi patético.
Mas ali, com os pés descalços e o chão frio, não havia nada. Nem sequer a miúda torcida do Fluminense. Nem sequer a velhinha que costuma caminhar de vez em quando pelo corredor para exercitar, e sempre pergunta pela minha mãe como se me conhecesse desde que nasci, apesar de eu nunca tê-la visto até uns seis meses atrás, quando me mudei para o prédio. Em menos de trinta segundos, fui até a lixeira, enfiei o saco de lixo pelo buraco, fechei e num piscar de olhos estava em meu apartamento novamente: o Solo Sagrado.
Frustrante. Eu havia me preparado tanto para atravessar aqueles dez metrinhos, e nem uma viva alma foi me ver? Impossível. Logicamente, fui procurar o que mais havia de lixo para ser jogado fora. Havia o da sala e o do banheiro. Levei os dois, um a um, só para prolongar minha estadia no corredor. Não adiantou, o corredor era um deserto. "O mundo deve ter sido abduzido, não é possível!" - Eu exclamei, enquanto voltava da última viagem.
Num surto de loucura, fiz uma cambalhota no chão do corredor. E outra. Depois, dei uns passos, e fiz uma estrelinha. Ninguém apareceu, nem para aplaudir, nem para vaiar. Tomei mais distância, corri e dei um salto-triplo-escarpado, igualzinho à Daiane dos Santos, mas Botafogo inteiro já devia estar dentro de uma nave mãe à la Independence Day. Tirei a blusa e joguei no chão. Depois, dancei sensualmente e fiz um strip do restante. Estava nu, no corredor, e ninguém aparecia. Ora, será o Big Brother? Nem um camundongo. Nem uma formiga, sequer. Notei que estava indo longe demais quando lembrei que as portas tinham olhos. Olhos mágicos, por sinal.
Recolhi meus trajes de gogo boy do chão e voltei para o apartamento - não deu sequer para fazer um trocado - mas não fechei a porta. O Camel continuou comendo solto, e pus o som no último volume. Nem o Claro Hall tem um som tão alto quanto o meu! Estava pau da vida. Coloquei a maldita caixinha de suco de goiaba na lixeira com um porcaria de um saco de supermercado vazio, lugar mais que merecido para aquele resto de coisas - veio no saco, vai no saco. E finalmente, escrevi este conto inteiro com a porta escancarada, mas nem um vizinho veio reclamar.
Vai ver eles gostam de Camel.
Tudo começou quando acabou o suco de goiaba de caixinha. Eram dez horas da manhã, em pleno feriado no Rio de Janeiro. Vida de solteiro morando sozinho é assim: você acorda, faz algumas coisas e só vai tomar banho lá pelo meio dia, quando sente fome e quer almoçar mas está com preguiça de fazer comida. No meu caso, não é preguiça. É uma imperícia da peste: eu não sei cozinhar, e também não me interessa aprender.
Há quem me pergunte como eu consigo me virar na vida social, quando rola um rateio para o almoço na casa de um amigo. O que eu faço? Como participo? Ora, lavo louça. Não ligo para isso, e até gosto. Mas em casa, sozinho, fazer almoço e lavar louça? Definitivamente, não é para mim.
Voltando. Lá estava eu, na frente do computador editando uns textos - porque nestes dias me surgiram algumas idéias, e tenho colocado tudo no papel - quando fui até a cozinha pegar algo para beber. Pus um copo de suco de goiaba, que acabou com o que havia dentro da caixinha. Depois de matar o suco, a caixinha ficou ali, sozinha em cima da pia, com um vazio por dentro que dava até pena. Decidi que ela precisava ir pro lixo, e se juntar às outras como ela, indo pro "céu das caixinhas vazias de suco". Ela havia cumprido bem seu papel de matadora de fome das horas vagas, e merecia um funeral. Quem sabe se numa encarnação posterior não voltasse reciclada, e misturada às almas de outros produtos que também serviram dignamente aos seus consumidores?
Peguei a caixa, e olhei para o caixão - o cesto de lixo. Estava cheio. Impossível colocar qualquer coisa a mais. Lembrei que havia ficado de jogar aquilo tudo no fora da próxima vez que saísse. Mas, como todo cara relapso que se preze, eu havia esquecido. Por uns quatro dias, eu havia esquecido, e sempre insistia em entulhar mais coisas no cesto, pobrezinho. Já não conseguia nem mais fechar a tampa. Era a hora de um ato heróico: levaria o lixo para a lixeira do prédio, e depois colocaria um saco de lixo novinho em folha, no qual a caixa de suco de goiaba seria a primeira a descansar em paz.
Para o leitor de boa memória, é desnecessário dizer que eu estava como quem havia acabado de acordar, não é mesmo? "Pois é... Aí tem um problema", como diria Cassino - meu chefe - sempre com uma boa inspiração e visão de inúmeros lances à frente da minha. Era muito claro: como iria atravessar o corredor no estado em que me encontrava? Uma blusa azul-desbotada que parecia ter sido mastigada, cabelos para o ar e um short velho que doía? Resolvi dar um "jeitinho rápido", pois, como todo mundo sabe, quando você está em situação desprivilegiada no corredor do seu prédio, todos os vizinhos saem para te ver.
Fui até o banheiro, me olhei no espelho e pensei: nem a Medusa teria coragem de me olhar nos olhos. Passei uma água bem de leve no cabelo, peguei uma escova e lá fui eu lutar contra milhares de fios. Bom, pelo menos são menos do que quando eu era mais novo - acho que eles estão me abandonando de insatisfação. Quando enfim terminei, percebi que não parecia nem que tinha tentado pentear. Mas já estava bem melhor. Precisava de mais recursos. Um boné, quem sabe? Essa idéia, que está sempre entre as primeiras da fila de idéias salvadoras, é sempre ridícula, ainda mais quando você só quer atravessar o corredor. Para mim, seria pior se me vissem de boné, porque não haveria maneira de esconder o quanto estava preocupado, e detesto quando isso acontece, ainda mais no que tange minha beleza natural, da qual tenho tanto orgulho.
A idéia do boné foi pelo ralo - Há uns 6 anos, data do meu último boné, eu acho. Comecei a enganchar uma cabelo no outro, para pelo menos mantê-los baixos o suficiente. Assim, quem me visse de longe não ia notar nada, a não ser que fossem aves de rapina. Depois de uns minutos tentando ajeitar meu visual, me peguei pensando em como me preocupara com aquela trajetória ridícula de menos de dez metros, entre a porta do meu apartamento e a lixeira, no corredor.
"Mas era ida e volta", pensei. Agora é a hora de você me perguntar se sou algum lunático. Eu estava prevendo que todo o tráfego pedestre de Botafogo passaria por aquele corredorzinho, e que a distância até a lixeira era a de uma maratona. "Ida e volta", pensei novamente. "Mas e se me virem de costas? Eu não sei como está meu cabelo desse ângulo." Meu ego agonizava, tremendo encolhido ali, no canto do banheiro, com olhos vidrados e grandes. E percebi o quanto somos vuneráveis às condições tão normais de temperatura e pressão que nos assolam todos os dias.
Subitamente, um instinto heróico me tomou o espírito. "Eu vou do jeito que estou, e dane-se (dano-me) se alguém me vir assim". Afinal, a caixinha de suco de goiaba já estava se sentindo abandonada com o meu descaso. Corri para a cozinha, dei um nó no saco de lixo, tirei-o de dentro da lata e abri a porta, tudo de uma vez. A caixinha pulou de alegria, como um plebeu que vê o He-Man chegando para salvar a vila das maldades do poderoso Esqueleto. Um infortúnio, porque pareço mais com o vilão.
No meu som, tocava muito alto o álbum Breathless do Camel o tempo todo. Quando entrou a música Summer Lightning, me enchi de inspiração. Olhei o corredor, mas não parecia haver qualquer sinal de inimigos ou transeuntes. Nem mesmo as águias ou falcões. Pensei: "os inimigos sempre armam as emboscadas nas curvas dos corredores". Sorrateiramente, dei os primeiros passos para dentro daquele labirinto. Me sentia um herói de O Senhor dos Anéis. Mais especificamente o Frodo, que é mais fraco e tolo. Torcia mesmo que houvesse somente orcs no corredor, pois pelo menos são mais feios do que eu, e não poderiam zombar de minhas madeixas despenteadas. Com um passo após o outro, me aproximava da garganta do gigante (a lixeira) que engoliria todo o lixo com seu apetite voraz.
Suava frio. Durante todo o caminho, me perguntava quando os inimigos saltariam do nada para caçoar de mim, ou quando aquela vizinha gatinha sairia de seu apartamento e me veria novamente numa situação embaraçosa. Da primeira vez em que a vi, eu estava saindo para trabalhar e não notei que ela estava no corredor. Imitava um solo de bateria, com os barulhos, gestos e tudo mais. Foi patético.
Mas ali, com os pés descalços e o chão frio, não havia nada. Nem sequer a miúda torcida do Fluminense. Nem sequer a velhinha que costuma caminhar de vez em quando pelo corredor para exercitar, e sempre pergunta pela minha mãe como se me conhecesse desde que nasci, apesar de eu nunca tê-la visto até uns seis meses atrás, quando me mudei para o prédio. Em menos de trinta segundos, fui até a lixeira, enfiei o saco de lixo pelo buraco, fechei e num piscar de olhos estava em meu apartamento novamente: o Solo Sagrado.
Frustrante. Eu havia me preparado tanto para atravessar aqueles dez metrinhos, e nem uma viva alma foi me ver? Impossível. Logicamente, fui procurar o que mais havia de lixo para ser jogado fora. Havia o da sala e o do banheiro. Levei os dois, um a um, só para prolongar minha estadia no corredor. Não adiantou, o corredor era um deserto. "O mundo deve ter sido abduzido, não é possível!" - Eu exclamei, enquanto voltava da última viagem.
Num surto de loucura, fiz uma cambalhota no chão do corredor. E outra. Depois, dei uns passos, e fiz uma estrelinha. Ninguém apareceu, nem para aplaudir, nem para vaiar. Tomei mais distância, corri e dei um salto-triplo-escarpado, igualzinho à Daiane dos Santos, mas Botafogo inteiro já devia estar dentro de uma nave mãe à la Independence Day. Tirei a blusa e joguei no chão. Depois, dancei sensualmente e fiz um strip do restante. Estava nu, no corredor, e ninguém aparecia. Ora, será o Big Brother? Nem um camundongo. Nem uma formiga, sequer. Notei que estava indo longe demais quando lembrei que as portas tinham olhos. Olhos mágicos, por sinal.
Recolhi meus trajes de gogo boy do chão e voltei para o apartamento - não deu sequer para fazer um trocado - mas não fechei a porta. O Camel continuou comendo solto, e pus o som no último volume. Nem o Claro Hall tem um som tão alto quanto o meu! Estava pau da vida. Coloquei a maldita caixinha de suco de goiaba na lixeira com um porcaria de um saco de supermercado vazio, lugar mais que merecido para aquele resto de coisas - veio no saco, vai no saco. E finalmente, escrevi este conto inteiro com a porta escancarada, mas nem um vizinho veio reclamar.
Vai ver eles gostam de Camel.
terça-feira, julho 04, 2006
Elasmossauro
Ele abriu um terminal e lá estavam as três lacunas que deveriam ser preenchidas: usuário, senha e nome do banco de dados.
"Não me lembro do que tenho que preencher".
Com um pouco de esforço, trouxe à lembrança o nome do usuário: "zeus". A senha era fácil. Projetos internos sempre recebiam como senha o mesmo usuário, seguido de dois zeros: "zeus00". Mas sabia que estes dados estavam inválidos. Com um pouco mais de esforço, lembrou-se de que os dados haviam mudado. A segunda combinação de usuário e senha só haviam sido utilizados uma única vez.
"Ih, caramba... Vou ter que me lembrar do que eram. Não anotei em lugar nenhum."
Fechou os olhos. Com uma busca em seu consciente, encontrou o caminho. Entre paus, pedras, castelos, canetas e tudo o mais que seu cérebro pudesse associar de informações inúteis. Escavou do fundo de seu baú mental os usuários e senhas mais recentes: "zeusproj". Era a mesma palavra para usuário e senha.
"Ok. Mas agora falta o principal. O nome do banco de dados."
Esta informação não havia mudado. Ele resolveu testar seus novos poderes. Fechou os olhos, a fim de enxergar melhor dentro de si. "Elasmossauro", "endívias gratinadas", "tecnologia". Eram termos totalmente fora de cogitação. Mas a palavra estava lá. Começou a lembrar de sua colega de projeto. Ela sabia muito bem sobre este banco de dados, já que era sua mantenedora. Das duas ou três vezes que o acessara, perguntou-lhe rapidamente o nome, sem lhe dar muita atenção.
"Isso vai ser bastante difícil".
Ele focou sua consciência. Debruçou a cabeça sobre suas mãos. Os cotovelos estavam apoiados em cima da mesa. Reajustou o ritmo respiratório, a fim de bombear mais sangue para seu cérebro.
"Eu sei que a palavra está por aqui".
"Acidente", "gestação", "ponto de impacto", "terremoto"... Nada que encontrava tinha qualquer relação óbvia com objeto procurado em seu bagunçado quarto de lembranças. Aos poucos, sentiu que as veias de sua testa estavam inchando. Mas não devia prestar atenção nestes pequenos pontos de dispersão. Devia perceber seu interior. Aumentou o ritmo respiratório, a fim de melhorar a oxigenação. Lembrou-se que outras pessoas pronunciavam esta mesma palavra com freqüência, para designar um dos conceitos do projeto.
"Quase lá, quase lá. Elasmossauro, elasmossauro..."
Em um rompante, abriu os olhos e olhou o google, buscando por palavras similares. Sabia que, a essa altura, se encontrasse a palavra escrita em algum lugar, reconheceria. Mas ela não estava em texto algum. Minutos depois, voltou, e demorou algum tempo antes de chegar ao mesmo estágio no qual havia abandonado sua busca mental.
"Ora, ora... Se alguém me disser o nome do banco, é claro que eu vou dizer que já sabia. Ele vai ter que sair daqui."
Em mais alguns instantes, iniciou os exercícios de contrações, ou Bandhas. Em breve, a energia concentrada subiria para sua cabeça. Quando sentiu a maior clareza em seus pensamentos, teve a nítida sensação: era questão de tempo até que lembrasse a palavra.
"Pronto. Daqui a pouco eu vou lembrar a bendita palavra."
Voltou a olhar as coisas à sua volta. A sensação de executar essas façanhas era sempre a de visitar um mundo paralelo, que só existia dentro de si. Enquanto clicava e escrevia coisas em sua área de trabalho, sorriu sozinho e percebeu claramente, como uma garrafa tampada que chega à superfície do mar de águas turvas, a mensagem que buscou como afinco.
"Sismografia".
Ao preencher os dados das lacunas em branco, viu-se apreensivo. Clicou no botão "OK", e após alguns instantes o terminal emitia a mensagem:
> Connected.
Feliz da vida, chamou um dos seus colegas de trabalho para comentar o fato. Antes de mencionar toda a história, disse que havia esquecido o nome do banco de dados. Seu colega prontamente respondeu:
"Todos os projetos usam o banco de dados sismografia."
Agradeceu polidamente, voltou completamente sem graça à sua mesa e resolveu não contar coisa alguma a ninguém.
"Não me lembro do que tenho que preencher".
Com um pouco de esforço, trouxe à lembrança o nome do usuário: "zeus". A senha era fácil. Projetos internos sempre recebiam como senha o mesmo usuário, seguido de dois zeros: "zeus00". Mas sabia que estes dados estavam inválidos. Com um pouco mais de esforço, lembrou-se de que os dados haviam mudado. A segunda combinação de usuário e senha só haviam sido utilizados uma única vez.
"Ih, caramba... Vou ter que me lembrar do que eram. Não anotei em lugar nenhum."
Fechou os olhos. Com uma busca em seu consciente, encontrou o caminho. Entre paus, pedras, castelos, canetas e tudo o mais que seu cérebro pudesse associar de informações inúteis. Escavou do fundo de seu baú mental os usuários e senhas mais recentes: "zeusproj". Era a mesma palavra para usuário e senha.
"Ok. Mas agora falta o principal. O nome do banco de dados."
Esta informação não havia mudado. Ele resolveu testar seus novos poderes. Fechou os olhos, a fim de enxergar melhor dentro de si. "Elasmossauro", "endívias gratinadas", "tecnologia". Eram termos totalmente fora de cogitação. Mas a palavra estava lá. Começou a lembrar de sua colega de projeto. Ela sabia muito bem sobre este banco de dados, já que era sua mantenedora. Das duas ou três vezes que o acessara, perguntou-lhe rapidamente o nome, sem lhe dar muita atenção.
"Isso vai ser bastante difícil".
Ele focou sua consciência. Debruçou a cabeça sobre suas mãos. Os cotovelos estavam apoiados em cima da mesa. Reajustou o ritmo respiratório, a fim de bombear mais sangue para seu cérebro.
"Eu sei que a palavra está por aqui".
"Acidente", "gestação", "ponto de impacto", "terremoto"... Nada que encontrava tinha qualquer relação óbvia com objeto procurado em seu bagunçado quarto de lembranças. Aos poucos, sentiu que as veias de sua testa estavam inchando. Mas não devia prestar atenção nestes pequenos pontos de dispersão. Devia perceber seu interior. Aumentou o ritmo respiratório, a fim de melhorar a oxigenação. Lembrou-se que outras pessoas pronunciavam esta mesma palavra com freqüência, para designar um dos conceitos do projeto.
"Quase lá, quase lá. Elasmossauro, elasmossauro..."
Em um rompante, abriu os olhos e olhou o google, buscando por palavras similares. Sabia que, a essa altura, se encontrasse a palavra escrita em algum lugar, reconheceria. Mas ela não estava em texto algum. Minutos depois, voltou, e demorou algum tempo antes de chegar ao mesmo estágio no qual havia abandonado sua busca mental.
"Ora, ora... Se alguém me disser o nome do banco, é claro que eu vou dizer que já sabia. Ele vai ter que sair daqui."
Em mais alguns instantes, iniciou os exercícios de contrações, ou Bandhas. Em breve, a energia concentrada subiria para sua cabeça. Quando sentiu a maior clareza em seus pensamentos, teve a nítida sensação: era questão de tempo até que lembrasse a palavra.
"Pronto. Daqui a pouco eu vou lembrar a bendita palavra."
Voltou a olhar as coisas à sua volta. A sensação de executar essas façanhas era sempre a de visitar um mundo paralelo, que só existia dentro de si. Enquanto clicava e escrevia coisas em sua área de trabalho, sorriu sozinho e percebeu claramente, como uma garrafa tampada que chega à superfície do mar de águas turvas, a mensagem que buscou como afinco.
"Sismografia".
Ao preencher os dados das lacunas em branco, viu-se apreensivo. Clicou no botão "OK", e após alguns instantes o terminal emitia a mensagem:
> Connected.
Feliz da vida, chamou um dos seus colegas de trabalho para comentar o fato. Antes de mencionar toda a história, disse que havia esquecido o nome do banco de dados. Seu colega prontamente respondeu:
"Todos os projetos usam o banco de dados sismografia."
Agradeceu polidamente, voltou completamente sem graça à sua mesa e resolveu não contar coisa alguma a ninguém.
segunda-feira, junho 19, 2006
Produtividade e Fluxo de Trabalho – Sérgio Franco
Minha médica me pediu um exame periódico de sangue, a fim de fazer um checkup. Para me informar melhor, fui até o laboratório Sérgio Franco, no Leblon. Do lado de fora, uma vidraça enorme, espelhada, já na altura da calçada. Um segurança local me recepcionou, e imediatamente me encaminhou para um balcão muito óbvio, bem na entrada:
- Você pode conseguir as informações que quiser com aquela moça ali, senhor.
Olhei em volta. Um hall enorme, com um pé direito de talvez uns cinco metros, algumas colunas de sustentação, todas as paredes cobertas com um papel de parede imitando madeira de textura bem clara e suave. Ao meu lado direito, uma fileira de bancos de espera para o balcão de recepção. À esquerda, se estendia uma fileira de baias com atendentes e uma segunda fileira de cadeiras, com pacientes aguardando o momento do atendimento.
Fui até “aquela moça ali”:
- Boa tarde, senhor. Em que posso ajudar? – Fui recebido com um sorriso muito cortês.
- Boa tarde, gostaria de saber como devo proceder para fazer um exame de sangue.
- Convênio com plano de saúde?
- Sim.
- Empresarial ou particular?
- Particular.
- Qual é o plano, senhor?
- X.
- Obrigado. Que exames você deseja fazer?
- Não entendo nada disso, mas a minha médica me entregou esta carta – repassei a tal carta para a atendente.
- Perfeitamente. Para os exames de sangue, o senhor deve estar em jejum por no mínimo doze horas. A radiografia nós ainda não estamos executando neste laboratório. A fila é obedecida por ordem de chegada dos clientes, e estamos abertos a partir das 6:30 da manhã, que é o horário preferível para se fazer a coleta de sangue.
- Bom, então eu posso voltar aqui amanhã de manhã?
- Sim, senhor Rodrigo.
- Obrigado.
(No dia seguinte, fui atendido por uma outra recepcionista)
- Bom dia, senhor, em que posso ajudar?
- Oi, gostaria de fazer um exame de sangue. – De cara, fui entregando o cartão do plano de saúde e a carta da médica.
- Um momento, por favor, senhor Rodrigo. – Agora começou a mágica. Ela digitou alguma coisa em seu terminal – Pronto, o senhor pode aguardar naquela fila com a carteira do plano de saúde, a carta da médica e um documento de identidade. Uma das nossas operadoras vai chamá-lo.
Fui para a fileira de bancos à esquerda. Sentei-me e saquei um livro, pensando que o atendimento fosse demorar. Em menos de cinco minutos, uma mulher chama pelo meu nome, e lá fui eu. Entreguei os documentos, e ela digitou alguns dados cadastrais – afinal, era a primeira visita. Imprimiu alguns documentos, e me pediu para ler e assina-los. Eram somente os pedidos dos exames de sangue.
Não pude deixar de reparar em um leitor de impressões digitais, ao lado do monitor de tela plana da atendente:
- Me desculpe pela pergunta. Você usa isso aqui pra se identificar no seu terminal?
- Não, senhor Rodrigo. O seu plano de saúde usa esse leitor para autenticar os clientes, dependendo do tipo de exame feito. Para exames de sangue isso não é requerido, mas daqui a algumas semanas nossa radiologia estará funcionando novamente, e daí, se você voltasse e pedisse uma radiologia, teríamos que cadastrá-lo uma vez. A partir de então você poderia ser reconhecido em toda a rede onde temos este sistema.
- Calma aí... Você tá dizendo que o meu plano de saúde colocou esses leitores em toda a rede Sérgio Franco?
- Quase toda. Ainda faltam algumas unidades, mas já estão sendo implantados.
Que ingênuo eu fui. Achando mesmo que aquele leitor era pra ser usado uma vez por dia, só quando a mulher chegasse ao trabalho... Mas uma empresa colocando equipamentos dentro de outra... Estranho, não? Isso se chama integração.
Dali a algumas assinaturas, ela me ensinou o terceiro hall de espera, para seguir ao exame.
- Você mesmo vem buscar, ou prefere que enviemos o resultado?
- Eu mesmo posso vir.
- Ok. Tenha um bom dia, senhor Rodrigo.
- Bom dia, Lidiane – O nome dela estava em seu crachá de identificação.
Lá fui eu. Dessa vez, pra uma sala semicircular, com uma tevê que exibia algum vídeo de acrobatas e trapezistas. Provavelmente algum espetáculo do Cirque du Soleil. Não ousei sacar o livro. Em menos de 5 minutos, novamente:
- Senhor Rodrigo?
- Sou eu.
- Bom dia, senhor Rodrigo! Por aqui, por favor.
O técnico comparou minha carteira de identidade com os documentos que recebera via rede, me explicou minuciosamente cada passo da coleta de sangue, e em menos de 10 minutos havia feito o exame. Recebi um cartão, como um cartão de visita, mas com os dados do meu exame e a data do resultado, que seria dali a dois dias. Fui encaminhado para a última saleta, de saída, onde poderia tomar um café e relaxar um pouco. Lá também passava o tal vídeo. Saí pelo outro lado do laboratório.
(Dois dias depois)
- Bom dia, gostaria de recuperar os resultados de um exame de sangue.
- Por ali, senhor – O recepcionista me apontou um segundo balcão de recepção. Dessa vez, notei que tanto a recepção principal quanto a sala de “check in” tinham suas tevês, com a mesma programação do circo.
- Bom dia, senhor, em que posso ajudar?
- Vim pegar os resultados deste exame – Entreguei o cartão.
- Um instante, por favor, senhor Rodrigo.
Em questão de segundos, a mulher digitou minha identificação, e os exatos documentos dos meus exames foram impressos. Ela grampeou as mais de dez páginas, dobrou em duas marcas, inseriu em um envelope de correspondência, lacrou com uma etiqueta do laboratório e me entregou em mãos.
- Obrigado.
- De nada. Tenha um bom dia, senhor Rodrigo.
Em menos de cinco minutos, lá estava eu do lado de fora. Parei para olhar o envelope. As dobras do documento guardado faziam com que os meus dados, juntamente dos dados da minha médica, do meu convênio e do meu endereço residencial aparecessem através de uma parte transparente em uma das faces do envelope, certinho...
Não sei por que, mas eu me sinto tão bem quando as pessoas me recebem sorridentes, são atenciosas e me chamam pelo nome...
Sabe quando eu gosto de um computador? Quando quem o usa mal precisa tocá-lo.
- Você pode conseguir as informações que quiser com aquela moça ali, senhor.
Olhei em volta. Um hall enorme, com um pé direito de talvez uns cinco metros, algumas colunas de sustentação, todas as paredes cobertas com um papel de parede imitando madeira de textura bem clara e suave. Ao meu lado direito, uma fileira de bancos de espera para o balcão de recepção. À esquerda, se estendia uma fileira de baias com atendentes e uma segunda fileira de cadeiras, com pacientes aguardando o momento do atendimento.
Fui até “aquela moça ali”:
- Boa tarde, senhor. Em que posso ajudar? – Fui recebido com um sorriso muito cortês.
- Boa tarde, gostaria de saber como devo proceder para fazer um exame de sangue.
- Convênio com plano de saúde?
- Sim.
- Empresarial ou particular?
- Particular.
- Qual é o plano, senhor?
- X.
- Obrigado. Que exames você deseja fazer?
- Não entendo nada disso, mas a minha médica me entregou esta carta – repassei a tal carta para a atendente.
- Perfeitamente. Para os exames de sangue, o senhor deve estar em jejum por no mínimo doze horas. A radiografia nós ainda não estamos executando neste laboratório. A fila é obedecida por ordem de chegada dos clientes, e estamos abertos a partir das 6:30 da manhã, que é o horário preferível para se fazer a coleta de sangue.
- Bom, então eu posso voltar aqui amanhã de manhã?
- Sim, senhor Rodrigo.
- Obrigado.
(No dia seguinte, fui atendido por uma outra recepcionista)
- Bom dia, senhor, em que posso ajudar?
- Oi, gostaria de fazer um exame de sangue. – De cara, fui entregando o cartão do plano de saúde e a carta da médica.
- Um momento, por favor, senhor Rodrigo. – Agora começou a mágica. Ela digitou alguma coisa em seu terminal – Pronto, o senhor pode aguardar naquela fila com a carteira do plano de saúde, a carta da médica e um documento de identidade. Uma das nossas operadoras vai chamá-lo.
Fui para a fileira de bancos à esquerda. Sentei-me e saquei um livro, pensando que o atendimento fosse demorar. Em menos de cinco minutos, uma mulher chama pelo meu nome, e lá fui eu. Entreguei os documentos, e ela digitou alguns dados cadastrais – afinal, era a primeira visita. Imprimiu alguns documentos, e me pediu para ler e assina-los. Eram somente os pedidos dos exames de sangue.
Não pude deixar de reparar em um leitor de impressões digitais, ao lado do monitor de tela plana da atendente:
- Me desculpe pela pergunta. Você usa isso aqui pra se identificar no seu terminal?
- Não, senhor Rodrigo. O seu plano de saúde usa esse leitor para autenticar os clientes, dependendo do tipo de exame feito. Para exames de sangue isso não é requerido, mas daqui a algumas semanas nossa radiologia estará funcionando novamente, e daí, se você voltasse e pedisse uma radiologia, teríamos que cadastrá-lo uma vez. A partir de então você poderia ser reconhecido em toda a rede onde temos este sistema.
- Calma aí... Você tá dizendo que o meu plano de saúde colocou esses leitores em toda a rede Sérgio Franco?
- Quase toda. Ainda faltam algumas unidades, mas já estão sendo implantados.
Que ingênuo eu fui. Achando mesmo que aquele leitor era pra ser usado uma vez por dia, só quando a mulher chegasse ao trabalho... Mas uma empresa colocando equipamentos dentro de outra... Estranho, não? Isso se chama integração.
Dali a algumas assinaturas, ela me ensinou o terceiro hall de espera, para seguir ao exame.
- Você mesmo vem buscar, ou prefere que enviemos o resultado?
- Eu mesmo posso vir.
- Ok. Tenha um bom dia, senhor Rodrigo.
- Bom dia, Lidiane – O nome dela estava em seu crachá de identificação.
Lá fui eu. Dessa vez, pra uma sala semicircular, com uma tevê que exibia algum vídeo de acrobatas e trapezistas. Provavelmente algum espetáculo do Cirque du Soleil. Não ousei sacar o livro. Em menos de 5 minutos, novamente:
- Senhor Rodrigo?
- Sou eu.
- Bom dia, senhor Rodrigo! Por aqui, por favor.
O técnico comparou minha carteira de identidade com os documentos que recebera via rede, me explicou minuciosamente cada passo da coleta de sangue, e em menos de 10 minutos havia feito o exame. Recebi um cartão, como um cartão de visita, mas com os dados do meu exame e a data do resultado, que seria dali a dois dias. Fui encaminhado para a última saleta, de saída, onde poderia tomar um café e relaxar um pouco. Lá também passava o tal vídeo. Saí pelo outro lado do laboratório.
(Dois dias depois)
- Bom dia, gostaria de recuperar os resultados de um exame de sangue.
- Por ali, senhor – O recepcionista me apontou um segundo balcão de recepção. Dessa vez, notei que tanto a recepção principal quanto a sala de “check in” tinham suas tevês, com a mesma programação do circo.
- Bom dia, senhor, em que posso ajudar?
- Vim pegar os resultados deste exame – Entreguei o cartão.
- Um instante, por favor, senhor Rodrigo.
Em questão de segundos, a mulher digitou minha identificação, e os exatos documentos dos meus exames foram impressos. Ela grampeou as mais de dez páginas, dobrou em duas marcas, inseriu em um envelope de correspondência, lacrou com uma etiqueta do laboratório e me entregou em mãos.
- Obrigado.
- De nada. Tenha um bom dia, senhor Rodrigo.
Em menos de cinco minutos, lá estava eu do lado de fora. Parei para olhar o envelope. As dobras do documento guardado faziam com que os meus dados, juntamente dos dados da minha médica, do meu convênio e do meu endereço residencial aparecessem através de uma parte transparente em uma das faces do envelope, certinho...
Não sei por que, mas eu me sinto tão bem quando as pessoas me recebem sorridentes, são atenciosas e me chamam pelo nome...
Sabe quando eu gosto de um computador? Quando quem o usa mal precisa tocá-lo.
quinta-feira, maio 25, 2006
A Viagem de Layla e Amanda
Era o início da tarde. Layla se acomodou em seu quarto, e foi andar pela cidade que visitava. Enquanto dava sua volta de reconhecimento, percebeu que lá havia alguns salões que lembravam esses com caixas eletrônicos de banco. Uma placa os identificava com o nome "Teiaviva".
Ao cair a noite, ela estacionou em frente a um deles. Trancou o carro, e com alguns passos chegou até a porta da loja. Tirou seu chaveiro cilíndrico do bolso e destampou uma das extremidades. Uma espécie de conector foi revelada, e ela o encaixou numa fenda, em um painel lateral à porta. O display passou a mostrar a mensagem "Sua Digital Aqui".
Pressionou o dedo indicador no lugar apropriado, e a porta se abriu. Do lado de dentro, quinze terminais estavam dispostos, lado a lado. Alguns estavam ocupados. Layla escolheu um ao acaso. Cada terminal tinha um monitor de dezessete polegadas, um teclado, uma pequena esfera embutida ao lado do teclado e um conjunto de fones de ouvido e microfone pendurados ao lado do monitor.
Ela colocou o fone em sua cabeça, ajustou o microfone próximo à sua boca e pressionou algumas teclas aleatoriamente, a fim de ligar o monitor. A tela se acendeu, mostrando uma logomarca do sistema, presente em praticamente todas as grandes cidades do mundo. No canto inferior direito, uma seta verde com a legenda "Seu Disco Pessoal Aqui" pulsava lateralmente, apontando uma fenda, idêntica à encontrada no painel da porta.
A mulher, aparentando seus vinte e seis anos no melhor estilo "gostosona", cabelos e olhos castanhos, plugou seu chaveiro no conector. Era hora de dizer à sua prima que havia chegado, e que estava bem.
Ao perceber a conexão do disco, o sistema novamente solicitou que a mulher identificasse sua digital no espaço ao lado do conector.
Após a identificação de Layla, o monitor exibiu a mensagem "Digite Sua Senha". Ela digitou algumas letras, e em seguida, a mensagem "Sincronizando Dados..." apareceu. Após alguns segundos, o sistema mostrou a mensagem "Inicializando".
A logomarca desapareceu, dando espaço a uma área de trabalho ordinária, com alguns ícones e atalhos para programas. No canto inferior direito dessa área havia um display mostrando a hora, e um outro mostrando o tempo de crédito possuído: cinqüenta e três minutos. Automaticamente, sua lista de músicas começou a tocar. Uma canção de uma banda alternativa, Boom Boom Sattellites, soou em seu fone, mas não a ponto de atrapalhar a ligação telefônica que faria a seguir.
"Tenho que comprar mais créditos amanhã, pela manhã", pensou. Deslizando a palma da mão pela esfera, Layla levou o cursor até o ícone de um dos programas que desejava usar. A figura de um telefone surgiu, e um painel com os endereços de seus contatos foi mostrado ao lado esquerdo. Clicou no nome Amanda, e uma ligação para o estado vizinho foi iniciada.
Após alguns toques, sua amiga Amanda, dona de uma voz bem forte e grave, atendeu:
- Alou?
- Amanda?
- Layla? Já chegou?
- Já, amiga! Olha, tou morrendo de saudade! Cheguei pela manhã, e já arrumei tudo. A cidade é muito fria, mas é linda! Já preparou suas coisas?
- Ah, que bom! Já sim! Acabei de arrumar minhas malas, e daqui a pouco vou pro aeroporto!
- Ok, vou te buscar. Qual é mesmo o horário de chegada?
- Dez e meia.
- Perfeito, dez e meia no aeroporto. Um beijo, prima!
- Outro! Deixa eu dar um jeito nessa casa, pra depois eu partir.
- E Fernando?
- Me ligou mais cedo dizendo que ia passar uns dias na casa dos pais.
- Ah, isso vai ser bom pra ele.
- Vai sim. Agora, deixa eu me aprontar.
- Tchau!
- Bye bye!
Amanda desligou o telefone. Layla tentou ligar para seus pais, sem sucesso. Deixou um recado na secretária eletrônica, e mandou também um e-mail. Depois, telefonou para Pedro, mas seu celular não estava ligado.
- Que canalhinha... - Layla riu, sabendo que seu caso devia estar aproveitando sua ausência. Mandou-lhe um torpedo: "aproveite tudo o que puder, meu bem. Quando eu voltar, vou te seqüestrar por três dias."
Não tinha nenhum e-mail novo, mas no orkut seus amigos disparavam os scraps de sempre: "boa viagem!", "boas férias!", "me traz um presente!"
Entrou em seguida em um site, ThisPlace. Lá, fez uma busca pela cidade em que estava, e pegou todo o programa de bares, restaurantes, teatros e lugares recomendados. Salvou o arquivo, e resolveu partir.
Após desconectar e desligar tudo, voltou ao carro. Lá dentro, sacou um palmtop e plugou seu chaveiro nele. Iniciou o ThisPlace, abriu através do programa o arquivo que havia baixado na cabine. Na tela, apareceu o mapa em fotos aéreas da rua, e também um ponto vermelho, indicando onde ela estava naquele momento.
- Isso vai ser fácil. - Ela suspirou aliviada.
Digitou a palavra "lugares indicados". Automaticamente, a imagem foi afastada, e sobre o mapa apareceram alguns pontos azuis. Selecionou e gravou o roteiro daquela noite: parque público, buscar Amanda no aeroporto, jantar e por último ir a uma boate. Se divertiria com gente diferente, sem seu "cobertor de orelha" por perto.
- Primeiro passo... - Com um clique em "Piloto Automático", o programa soou a frase: "Siga em frente, e vire a próxima direita".
Layla deu a partida, seguiu em frente, virou à direita, e sorriu.

Ao cair a noite, ela estacionou em frente a um deles. Trancou o carro, e com alguns passos chegou até a porta da loja. Tirou seu chaveiro cilíndrico do bolso e destampou uma das extremidades. Uma espécie de conector foi revelada, e ela o encaixou numa fenda, em um painel lateral à porta. O display passou a mostrar a mensagem "Sua Digital Aqui".
Pressionou o dedo indicador no lugar apropriado, e a porta se abriu. Do lado de dentro, quinze terminais estavam dispostos, lado a lado. Alguns estavam ocupados. Layla escolheu um ao acaso. Cada terminal tinha um monitor de dezessete polegadas, um teclado, uma pequena esfera embutida ao lado do teclado e um conjunto de fones de ouvido e microfone pendurados ao lado do monitor.
Ela colocou o fone em sua cabeça, ajustou o microfone próximo à sua boca e pressionou algumas teclas aleatoriamente, a fim de ligar o monitor. A tela se acendeu, mostrando uma logomarca do sistema, presente em praticamente todas as grandes cidades do mundo. No canto inferior direito, uma seta verde com a legenda "Seu Disco Pessoal Aqui" pulsava lateralmente, apontando uma fenda, idêntica à encontrada no painel da porta.
A mulher, aparentando seus vinte e seis anos no melhor estilo "gostosona", cabelos e olhos castanhos, plugou seu chaveiro no conector. Era hora de dizer à sua prima que havia chegado, e que estava bem.
Ao perceber a conexão do disco, o sistema novamente solicitou que a mulher identificasse sua digital no espaço ao lado do conector.
Após a identificação de Layla, o monitor exibiu a mensagem "Digite Sua Senha". Ela digitou algumas letras, e em seguida, a mensagem "Sincronizando Dados..." apareceu. Após alguns segundos, o sistema mostrou a mensagem "Inicializando".
A logomarca desapareceu, dando espaço a uma área de trabalho ordinária, com alguns ícones e atalhos para programas. No canto inferior direito dessa área havia um display mostrando a hora, e um outro mostrando o tempo de crédito possuído: cinqüenta e três minutos. Automaticamente, sua lista de músicas começou a tocar. Uma canção de uma banda alternativa, Boom Boom Sattellites, soou em seu fone, mas não a ponto de atrapalhar a ligação telefônica que faria a seguir.
"Tenho que comprar mais créditos amanhã, pela manhã", pensou. Deslizando a palma da mão pela esfera, Layla levou o cursor até o ícone de um dos programas que desejava usar. A figura de um telefone surgiu, e um painel com os endereços de seus contatos foi mostrado ao lado esquerdo. Clicou no nome Amanda, e uma ligação para o estado vizinho foi iniciada.
Após alguns toques, sua amiga Amanda, dona de uma voz bem forte e grave, atendeu:
- Alou?
- Amanda?
- Layla? Já chegou?
- Já, amiga! Olha, tou morrendo de saudade! Cheguei pela manhã, e já arrumei tudo. A cidade é muito fria, mas é linda! Já preparou suas coisas?
- Ah, que bom! Já sim! Acabei de arrumar minhas malas, e daqui a pouco vou pro aeroporto!
- Ok, vou te buscar. Qual é mesmo o horário de chegada?
- Dez e meia.
- Perfeito, dez e meia no aeroporto. Um beijo, prima!
- Outro! Deixa eu dar um jeito nessa casa, pra depois eu partir.
- E Fernando?
- Me ligou mais cedo dizendo que ia passar uns dias na casa dos pais.
- Ah, isso vai ser bom pra ele.
- Vai sim. Agora, deixa eu me aprontar.
- Tchau!
- Bye bye!
Amanda desligou o telefone. Layla tentou ligar para seus pais, sem sucesso. Deixou um recado na secretária eletrônica, e mandou também um e-mail. Depois, telefonou para Pedro, mas seu celular não estava ligado.
- Que canalhinha... - Layla riu, sabendo que seu caso devia estar aproveitando sua ausência. Mandou-lhe um torpedo: "aproveite tudo o que puder, meu bem. Quando eu voltar, vou te seqüestrar por três dias."
Não tinha nenhum e-mail novo, mas no orkut seus amigos disparavam os scraps de sempre: "boa viagem!", "boas férias!", "me traz um presente!"
Entrou em seguida em um site, ThisPlace. Lá, fez uma busca pela cidade em que estava, e pegou todo o programa de bares, restaurantes, teatros e lugares recomendados. Salvou o arquivo, e resolveu partir.
Após desconectar e desligar tudo, voltou ao carro. Lá dentro, sacou um palmtop e plugou seu chaveiro nele. Iniciou o ThisPlace, abriu através do programa o arquivo que havia baixado na cabine. Na tela, apareceu o mapa em fotos aéreas da rua, e também um ponto vermelho, indicando onde ela estava naquele momento.
- Isso vai ser fácil. - Ela suspirou aliviada.
Digitou a palavra "lugares indicados". Automaticamente, a imagem foi afastada, e sobre o mapa apareceram alguns pontos azuis. Selecionou e gravou o roteiro daquela noite: parque público, buscar Amanda no aeroporto, jantar e por último ir a uma boate. Se divertiria com gente diferente, sem seu "cobertor de orelha" por perto.
- Primeiro passo... - Com um clique em "Piloto Automático", o programa soou a frase: "Siga em frente, e vire a próxima direita".
Layla deu a partida, seguiu em frente, virou à direita, e sorriu.
sábado, junho 25, 2005
Envelhecer Descobrindo-se Cada Vez Mais Jovem
Um dia, nasceu um ser humano com uma espécie de Via-Láctea dentro da cabeça. Os seres que viviam dentro deste universo descobriram, em certa época, alguns portais para uma dimensão paralela. Na verdade, descobriram que não era paralela, mas sim um mundo que envolvia o mundo deles. Deduziram que estavam dentro de uma caixa (craniana, mas esse detalhe ainda era desconhecido), e procuraram descobrir como fariam para sair de dentro daquela Via-Láctea. Queriam visitar o Super-Universo, como começaram a chamá-lo. Pensavam que, fora daquela caixa, os seres fossem super-seres, e que o Super-Universo fosse, de alguma forma, super-legal. Dentro dessa Via-Láctea, havia muitas perguntas não-respondidas, e até uma certa desordem, em alguns momentos. Lembrava muito o nosso próprio mundo.
Eles conseguiam receber informações do Super-Universo através dos modernos sistemas sinápticos das redes neurais super-avançadas de seu centro de comunicações, que chamaram coicidentemente "cérebro". Os principais centros de pesquisa traziam-lhes informações visuais, auditivas, palativas e até táteis. Tudo o que vinha de fora era reproduzido internamente, e vários experimentos eram refeitos, estudados e devidamente documentados e catalogados.
Enquanto este ser humano crescia, era também influenciado por estes seres dentro de sua cabeça. Ele sabia que algo de muito importante acontecia ali dentro, e por muitas vezes recebia mensagens enviadas pelas criaturas. Em algum cantinho da sua cabeça, havia realmente uma Via-Láctea, e este ser humano acreditava que lá todos fossem super-heróis, e que aquele universo fosse mais justo. Chamou-o também Super-Universo. Estas mensagens vinham em forma de sonhos e imaginação.
O tempo passou, e hoje, os super-seres de dentro da cabeça aprenderam técnicas modernas para saírem de lá e visitar o Super-Universo. Descobriram algumas zonas de refluxo do espaço-tempo, como se fossem buracos negros, que chamaram "Mãos" e "Voz", principalmente. Depois de cada viagem para fora da cabeça do Super-Ser, costumam fazer relatos de aventuras que viveram, e publicar todas estas elas em revistas de seus próprios planetas. Aqui, no nosso Universo, eles saem pelas mãos e pela voz do Super-Ser, em forma de fantásticas histórias, contadas para todo tipo de pessoa.
Eu sou um grande amigo deste Super-Ser. há muitos anos. E há tanto tempo quanto o conheço, tento entender quem inventou quem: se os seres de dentro inventaram o de fora, ou se o de fora inventou os de dentro. De qualquer maneira, tenho nele um irmão, de aventuras e histórias. Hoje é seu aniversário, e como em todos os aniversários, os super-seres lá dentro comemoram a data em que descobriram o Super-Universo. E ele comemora a data em que recebeu a primeira mensagem dessa Via-Láctea em sua cabeça.
Parabéns, Paulo Ivo! Felicidades!

Eles conseguiam receber informações do Super-Universo através dos modernos sistemas sinápticos das redes neurais super-avançadas de seu centro de comunicações, que chamaram coicidentemente "cérebro". Os principais centros de pesquisa traziam-lhes informações visuais, auditivas, palativas e até táteis. Tudo o que vinha de fora era reproduzido internamente, e vários experimentos eram refeitos, estudados e devidamente documentados e catalogados.
Enquanto este ser humano crescia, era também influenciado por estes seres dentro de sua cabeça. Ele sabia que algo de muito importante acontecia ali dentro, e por muitas vezes recebia mensagens enviadas pelas criaturas. Em algum cantinho da sua cabeça, havia realmente uma Via-Láctea, e este ser humano acreditava que lá todos fossem super-heróis, e que aquele universo fosse mais justo. Chamou-o também Super-Universo. Estas mensagens vinham em forma de sonhos e imaginação.
O tempo passou, e hoje, os super-seres de dentro da cabeça aprenderam técnicas modernas para saírem de lá e visitar o Super-Universo. Descobriram algumas zonas de refluxo do espaço-tempo, como se fossem buracos negros, que chamaram "Mãos" e "Voz", principalmente. Depois de cada viagem para fora da cabeça do Super-Ser, costumam fazer relatos de aventuras que viveram, e publicar todas estas elas em revistas de seus próprios planetas. Aqui, no nosso Universo, eles saem pelas mãos e pela voz do Super-Ser, em forma de fantásticas histórias, contadas para todo tipo de pessoa.
Eu sou um grande amigo deste Super-Ser. há muitos anos. E há tanto tempo quanto o conheço, tento entender quem inventou quem: se os seres de dentro inventaram o de fora, ou se o de fora inventou os de dentro. De qualquer maneira, tenho nele um irmão, de aventuras e histórias. Hoje é seu aniversário, e como em todos os aniversários, os super-seres lá dentro comemoram a data em que descobriram o Super-Universo. E ele comemora a data em que recebeu a primeira mensagem dessa Via-Láctea em sua cabeça.
Parabéns, Paulo Ivo! Felicidades!
quinta-feira, maio 26, 2005
Aquela da Livraria
Quando se começa um conto, você sabe que a história tem que ter uma moral. Por quê? Ora, é um pedacinho de texto que não tem a menor chance de ser lido se não for pra entregar algumas pérolas. Pelo menos uma.
E para esse conto eu não vou sequer inventar personagens. Foi comigo mesmo, enquanto passava em frente à livraria Argumento. Os livros que me viam gritaram por mim, da vitrine, ansiando por alguém que os folheassem. Como sempre, fitei as capas, varrendo-as com os olhos pra saber se algum tema me interessava. Olhos pra lá, olhos pra cá, e esvoaçou por trás dos livros uma mecha de fios bem finos e pretos. Cabelos femininos, num típico "momento de serem ajeitados".
Pronto, os livros já se eram. De quem era? Uma dama, como pude perceber, com aquele contraste bem peculiar e interessante: pele branquinha e cabelos bem pretos. Uma diva, vestida com uma saia cinza um pouco abaixo do joelho, e sapatos de boneca pretos, com meias brancas que cobriam as canelas. Vestia uma blusa bem comportada rosa-clara, e tinha os óculos de hastes pretas.
Será que é a "meia um-quarto"? Não sei, mas em um quarto eu teria mais que prazer em desnudar aquelas pernas e beijar os pés daquela princesa-anos-sessenta. Balancei a cabeça, porque já era a hora de voltar à realidade. Pensei: "ok, agora eu esqueço isso e vou para casa".
Você acha que eu ia perder a chance de ver o rostinho daquele anjo? - Entrando na loja, passei direto por ela, e notei que conversava animadamente com um homem. Talvez fosse o namorado. Estava sentada no bar, bebendo um refrigerante e comendo alguma coisinha qualquer. Como todo macho se sente o superior da espécie, logo pensei: "o que ela faz acompanhada desse aí? Que cara de babaca!".
Em uma fração de segundos, me dei conta que todo homem tem cara de babaca, especialmente quando está na companhia de uma linda mulher. Não há status, intelecto, beleza, firmeza, jovialidade, músculos, pose ou terno que faça um homem se ajeitar ao lado de da mulher que ama. Torna-se um babaca, e ponto. PS: as mulheres que são no máximo feias, mas que nunca têm cara de babaca, vão dominar o mundo.
Recolhi com um olhar para baixo a cara que me pertencia naquele momento (ela esteve no chão por um breve instante), e passei pelo casal. Fui ver os livros. Fui ver os discos. Marquei umas próximas compras e vi algumas coisas que podia procurar na rede - É mais fácil do que procurar material raro em lojas. - Depois de uns 15 minutos, eu já havia quase esquecido daquela garota com vestido estranho da entrada. Porque os livros estavam tão interessantes... Com várias intelectualóides gatinhas pesquisando então, nem se fala. Já falei o quanto gosto de garotas com óculos? Acho um charme.
Eu estava na parte de ter que voltar pra ver o rosto daquela que me fez entrar na livraria. Vamos lá. Me viro e vejo à distância a bela dona na porta de entrada. Fiz esse rodeio todo porque não queria dar pinta. Mas acho que essas coisas são sempre óbvias comigo - eu não sei mentir. Devo ter armado a MINHA cara de babaca e seguido em direção à porta. Vagarosamente, caminho sem naturalidade alguma, olhando por cima do ombro do outro que a acompanhava, e... Como diria Vinícius: "que me perdoem as feias, mas a beleza é fundamental".
Conclusão: será que aquela morena que olhava o CD do Coltrane tá sempre por ali? Isso é tão incomum hoje em dia...

Tou baixando umas ondas de clássico pra experimentar mais estilos. Peguei: Stravinsky, Schoenberg, Wagner, Stockhausen e ainda há na fila: Mahler, Boulez e Debussy. Todos estes são mais contemporâneos. Os Bach, Beethoven e Mozart são bons também, mas já são mais vovôs da galera que mencionei antes, e quero conhecer os compositores de hoje. Retocando: de hoje, não... Mas que sejam de, no máximo, 120 anos atrás.
E para esse conto eu não vou sequer inventar personagens. Foi comigo mesmo, enquanto passava em frente à livraria Argumento. Os livros que me viam gritaram por mim, da vitrine, ansiando por alguém que os folheassem. Como sempre, fitei as capas, varrendo-as com os olhos pra saber se algum tema me interessava. Olhos pra lá, olhos pra cá, e esvoaçou por trás dos livros uma mecha de fios bem finos e pretos. Cabelos femininos, num típico "momento de serem ajeitados".
Pronto, os livros já se eram. De quem era? Uma dama, como pude perceber, com aquele contraste bem peculiar e interessante: pele branquinha e cabelos bem pretos. Uma diva, vestida com uma saia cinza um pouco abaixo do joelho, e sapatos de boneca pretos, com meias brancas que cobriam as canelas. Vestia uma blusa bem comportada rosa-clara, e tinha os óculos de hastes pretas.
Será que é a "meia um-quarto"? Não sei, mas em um quarto eu teria mais que prazer em desnudar aquelas pernas e beijar os pés daquela princesa-anos-sessenta. Balancei a cabeça, porque já era a hora de voltar à realidade. Pensei: "ok, agora eu esqueço isso e vou para casa".
Você acha que eu ia perder a chance de ver o rostinho daquele anjo? - Entrando na loja, passei direto por ela, e notei que conversava animadamente com um homem. Talvez fosse o namorado. Estava sentada no bar, bebendo um refrigerante e comendo alguma coisinha qualquer. Como todo macho se sente o superior da espécie, logo pensei: "o que ela faz acompanhada desse aí? Que cara de babaca!".
Em uma fração de segundos, me dei conta que todo homem tem cara de babaca, especialmente quando está na companhia de uma linda mulher. Não há status, intelecto, beleza, firmeza, jovialidade, músculos, pose ou terno que faça um homem se ajeitar ao lado de da mulher que ama. Torna-se um babaca, e ponto. PS: as mulheres que são no máximo feias, mas que nunca têm cara de babaca, vão dominar o mundo.
Recolhi com um olhar para baixo a cara que me pertencia naquele momento (ela esteve no chão por um breve instante), e passei pelo casal. Fui ver os livros. Fui ver os discos. Marquei umas próximas compras e vi algumas coisas que podia procurar na rede - É mais fácil do que procurar material raro em lojas. - Depois de uns 15 minutos, eu já havia quase esquecido daquela garota com vestido estranho da entrada. Porque os livros estavam tão interessantes... Com várias intelectualóides gatinhas pesquisando então, nem se fala. Já falei o quanto gosto de garotas com óculos? Acho um charme.
Eu estava na parte de ter que voltar pra ver o rosto daquela que me fez entrar na livraria. Vamos lá. Me viro e vejo à distância a bela dona na porta de entrada. Fiz esse rodeio todo porque não queria dar pinta. Mas acho que essas coisas são sempre óbvias comigo - eu não sei mentir. Devo ter armado a MINHA cara de babaca e seguido em direção à porta. Vagarosamente, caminho sem naturalidade alguma, olhando por cima do ombro do outro que a acompanhava, e... Como diria Vinícius: "que me perdoem as feias, mas a beleza é fundamental".
Conclusão: será que aquela morena que olhava o CD do Coltrane tá sempre por ali? Isso é tão incomum hoje em dia...
Tou baixando umas ondas de clássico pra experimentar mais estilos. Peguei: Stravinsky, Schoenberg, Wagner, Stockhausen e ainda há na fila: Mahler, Boulez e Debussy. Todos estes são mais contemporâneos. Os Bach, Beethoven e Mozart são bons também, mas já são mais vovôs da galera que mencionei antes, e quero conhecer os compositores de hoje. Retocando: de hoje, não... Mas que sejam de, no máximo, 120 anos atrás.
terça-feira, abril 19, 2005
Àquele Que Nos Criou
Últimas conclusões? Acho que nenhuma. Só algumas novidades: adquiri um contrabaixo (irado, por sinal), que vocês verão em breve por aqui. Espero que também possam ouvir, pois vou fazer o possível para voltar a compor. E quero que tudo fique online, bunitinho.
Próximas aquisições até o final do ano: um tecladão e um micro decente pra gravar! ;)
Pra quem leu o novo texto à direita, já sabe do que se trata: um investimento.
De vez em quando o site http://rsantiago.no-ip.org estará online. De vez em quando haverá coisas interessantes pra pegar lá, mas esqueçam a parte de trabalhos de faculdade (exceto se vc for do meu grupo). Se quiser acessar e eu estiver online, me fala, que dá pra colocar as coisas no ar pra download.
Segue mais um conto, cujo título é o desse post:
Ele apreciava a natureza nas pedras, nos trovôes e nos choques das massas de ar. Havia uma coisa naquele planeta que o atraíra: água. Viveu a observar as possibilidades de evolução da terra, gostava do calor e da atividade vulcânica. Seria um lugar perfeito para haver vida. Depois de viajar bilhões de anos-luz, descansou por milênios, observando calmamente as ondas do mar.
Juntou um pouco de barro: tronco, pernas, braços e uma cabeça. Assim como ele próprio. Soprou no que seriam os ouvidos, e sussurrou:
- Faça-se a luz.
Da infinitude de seu olhar saíram seres alados e brancos, para que a vida encontrasse respostas.
Para que se pudesse aprender sentir o prazer de criar, presenteou a todos com a liberdade.
Continuou a vagar por toda a eternidade. Acompanhou a tragetória daquele barro molhado: foi logo atingido por um relâmpago, e dali despertou a primeira forma de vida. Caminhou por entre os grandes e antigos répteis, conheceu as primeiras civilizações. Utilizou a própria água para estirpar a criação que subverteu os valores que pregava. Ensinou todas as artes em seu devido tempo às pessoas propensas a aprendê-las e disseminá-las. Professou sua fé, ressuscitando após a a crucificação pelos seus próprios filhos, provando ser ele próprio o caminho, a verdade e a vida. Hoje se confunde no meio da multidão, sendo visto normalmente vestido com jeans e camisa de algodão. Suas palavras estão marcadas para sempre na memória ancestral de cada ser vivo: "Faça-se a luz". Estas mesmas palavras ecoam em nossos corações, como um alguém preso em busca da justiça pela bondade.

"De papel passado e com firma reconhecida em cartório." - Samba da Bênção, de Vinícius de Moraes e Baden Powell.
Próximas aquisições até o final do ano: um tecladão e um micro decente pra gravar! ;)
Pra quem leu o novo texto à direita, já sabe do que se trata: um investimento.
De vez em quando o site http://rsantiago.no-ip.org estará online. De vez em quando haverá coisas interessantes pra pegar lá, mas esqueçam a parte de trabalhos de faculdade (exceto se vc for do meu grupo). Se quiser acessar e eu estiver online, me fala, que dá pra colocar as coisas no ar pra download.
Segue mais um conto, cujo título é o desse post:
Ele apreciava a natureza nas pedras, nos trovôes e nos choques das massas de ar. Havia uma coisa naquele planeta que o atraíra: água. Viveu a observar as possibilidades de evolução da terra, gostava do calor e da atividade vulcânica. Seria um lugar perfeito para haver vida. Depois de viajar bilhões de anos-luz, descansou por milênios, observando calmamente as ondas do mar.
Juntou um pouco de barro: tronco, pernas, braços e uma cabeça. Assim como ele próprio. Soprou no que seriam os ouvidos, e sussurrou:
- Faça-se a luz.
Da infinitude de seu olhar saíram seres alados e brancos, para que a vida encontrasse respostas.
Para que se pudesse aprender sentir o prazer de criar, presenteou a todos com a liberdade.
Continuou a vagar por toda a eternidade. Acompanhou a tragetória daquele barro molhado: foi logo atingido por um relâmpago, e dali despertou a primeira forma de vida. Caminhou por entre os grandes e antigos répteis, conheceu as primeiras civilizações. Utilizou a própria água para estirpar a criação que subverteu os valores que pregava. Ensinou todas as artes em seu devido tempo às pessoas propensas a aprendê-las e disseminá-las. Professou sua fé, ressuscitando após a a crucificação pelos seus próprios filhos, provando ser ele próprio o caminho, a verdade e a vida. Hoje se confunde no meio da multidão, sendo visto normalmente vestido com jeans e camisa de algodão. Suas palavras estão marcadas para sempre na memória ancestral de cada ser vivo: "Faça-se a luz". Estas mesmas palavras ecoam em nossos corações, como um alguém preso em busca da justiça pela bondade.
"De papel passado e com firma reconhecida em cartório." - Samba da Bênção, de Vinícius de Moraes e Baden Powell.
terça-feira, abril 12, 2005
Demócrito E A Divisão
Enquanto assistia sua aula na faculdade, Demócrito pensava em como faria para entender todo aquele conteúdo até Sexta-Feira, data de sua prova. Pensou então nas coisas que deveria fazer - cuidar de sua casa, de seu trabalho, de sua faculdade, de sua namorada, de visitar seus pais, de tocar seu violão e se reunir com seus amigos, e finalmente de sua saúde.
Não sentiu o tempo passar, tampouco a loucura chegar, enquanto sentia aquela dor de cabeça lancinante, que começara há dois dias. Seus neurônios pareciam se mover como cobras emaranhadas, tal era a desarrumação e sensação de tonteira causada pela moléstia. Sua imaginação, aos poucos, ficou turva, e tudo o que pensava parecia começar a ser dividido em duas imagens. Os sons que ouvia estavam agora amplificados, quando sentiu um estalo dentro de si. Um estalo que saiu de todos os seus 'eus' - corpo, espírito e mente.
Fechou os olhos. Depois do estalo, tudo ficou silencioso. Abriu-os lentamente, para enxergar o mundo lá fora. Estava em uma UTI, ligado a aparelhos que monitoravam seus batimentos cardíacos e impulsos neurais. Prontuários médicos estavam dispostos em uma mesa de cabeceira, e Demócrito se perguntava quanto tempo devia ter se passado desde que tivera aquela sensação do estalo.
O rádio, que permanecia ligado na MEC, FM dizia: 14 de Agosto de 2005. 4 meses desde a última aula de Finanças que assistira.
Sentou-se sobre a cama, e viu-se preso àquela parafernália de equipamentos que o vigiava. Quando começou a pensar no que teria acontecido, a natureza do diálogo estava presente em sua mente. Demócrito agora percebera algo muito estranho - sua visão, que antes estava um pouco turva, quando se tornou nítida projetava duas imagens idênticas em sua mente, como os olhos de um camaleão faria. Ao se levantar, percebeu duas vontades que trabalhavam simultaneamente em seu cérebro - uma comandava a mão esquerda e outra a mão direita.
- O que é isso? - duas vozes ressoavam dentro de sua mente.
- Quem é você? - Percebeu duas consciências executando a mesma pergunta uma à outra. Havia um estranho na mente de Demócrito, mesmo que nada parecesse tão estranho no que aquelas duas criaturas em sua mente comandavam. Era ele próprio, em cada uma delas.
Desde que acordara, as pessoas não compreendiam o rapaz, e consentiam com sua loucura de se referir a si mesmo como "nós" ao invés de "eu". Afinal, Demócrito - ou Heráclito, como também começou a admitir ser chamado - tornara-se brilhante em tudo o que fazia, desde aquele pico de estresse que o levou a um coma de 4 meses. Parecia ser "dois em um".

Não sentiu o tempo passar, tampouco a loucura chegar, enquanto sentia aquela dor de cabeça lancinante, que começara há dois dias. Seus neurônios pareciam se mover como cobras emaranhadas, tal era a desarrumação e sensação de tonteira causada pela moléstia. Sua imaginação, aos poucos, ficou turva, e tudo o que pensava parecia começar a ser dividido em duas imagens. Os sons que ouvia estavam agora amplificados, quando sentiu um estalo dentro de si. Um estalo que saiu de todos os seus 'eus' - corpo, espírito e mente.
Fechou os olhos. Depois do estalo, tudo ficou silencioso. Abriu-os lentamente, para enxergar o mundo lá fora. Estava em uma UTI, ligado a aparelhos que monitoravam seus batimentos cardíacos e impulsos neurais. Prontuários médicos estavam dispostos em uma mesa de cabeceira, e Demócrito se perguntava quanto tempo devia ter se passado desde que tivera aquela sensação do estalo.
O rádio, que permanecia ligado na MEC, FM dizia: 14 de Agosto de 2005. 4 meses desde a última aula de Finanças que assistira.
Sentou-se sobre a cama, e viu-se preso àquela parafernália de equipamentos que o vigiava. Quando começou a pensar no que teria acontecido, a natureza do diálogo estava presente em sua mente. Demócrito agora percebera algo muito estranho - sua visão, que antes estava um pouco turva, quando se tornou nítida projetava duas imagens idênticas em sua mente, como os olhos de um camaleão faria. Ao se levantar, percebeu duas vontades que trabalhavam simultaneamente em seu cérebro - uma comandava a mão esquerda e outra a mão direita.
- O que é isso? - duas vozes ressoavam dentro de sua mente.
- Quem é você? - Percebeu duas consciências executando a mesma pergunta uma à outra. Havia um estranho na mente de Demócrito, mesmo que nada parecesse tão estranho no que aquelas duas criaturas em sua mente comandavam. Era ele próprio, em cada uma delas.
Desde que acordara, as pessoas não compreendiam o rapaz, e consentiam com sua loucura de se referir a si mesmo como "nós" ao invés de "eu". Afinal, Demócrito - ou Heráclito, como também começou a admitir ser chamado - tornara-se brilhante em tudo o que fazia, desde aquele pico de estresse que o levou a um coma de 4 meses. Parecia ser "dois em um".
quinta-feira, abril 07, 2005
Saile, o Compositor
Depois de ver a vergonhosa tacada, meteu a mão na mesa e recolheu as bolas de bilhar. Mediante o protesto dos jogadores que estavam na mesa, Esbravejou:
- Tacada?! Tacada?! Quero ver quem joga valendo aqui! - E percebia-se seu estado alcoólico, talvez misturado com algum outro entorpecente ilícito. - Sabe quem sou eu? Já ouviram falar dos Mutantes?
Rearrumou as bolas sobre a mesa, e apostou vinte Reais com um amigo. Venceu: 78 a 7 em uma partida desigual. Era grandioso em seus gestos, como quem sonha grandiosamente. Prepotente? Talvez. Restava-me aguardar. Conversava comigo, enquanto jogava, e explicava o quanto tinha feito como maestro pela música. Compusera para O Terço e Os Mutantes. Sua namorada-acessora traduzia lucidamente tudo o que eu não conseguia entender naquela figura um tanto complexa para o mundo em geral.
(...)
Mal-educadamente pedindo licença aos gritos, não aguardou a saída do violonista do pequeno palco, fazendo pouco caso de sua música. Em resposta ao grosso gesto, as pessoas restantes fizeram pouco caso da pessoa do maestro. Janelas fechadas, vassouras correndo enquanto ele testava o som, e discutia com um dos músicos, dizendo o quanto seu teclado era melhor do que aquele que experimentava. Encontrou finalmente um efeito que o agradava.
Causou um certo furor e antipatia dos empregados locais, até que começou a tocar.
Uma harmonia setentista e grandiosíssima, que eu acompanhava de longe, ao passo que ele acenava pra mim, demonstrando sua arte. Prestava atenção em cada gesto, e me espantava por vários motivos. Os outros músicos pararam, espantados. As pessoas restantes passavam por ele e o ignoravam, recostado naquele canto de parede vermelha com uma luz bem amarelada sobre si. Quando terminou, perguntou se eu havia gostado da música que criara naquele instante, que pra minha surpresa disse ter sido em minha homenagem.
Eu assisti espantado aquela pérola sendo vomitada por um porco: Saile, o Compositor.

Visitem o Choppers, às Quartas-Feiras: recitais de poesias e música ao vivo, pelos próprios freqüentadores.
- Tacada?! Tacada?! Quero ver quem joga valendo aqui! - E percebia-se seu estado alcoólico, talvez misturado com algum outro entorpecente ilícito. - Sabe quem sou eu? Já ouviram falar dos Mutantes?
Rearrumou as bolas sobre a mesa, e apostou vinte Reais com um amigo. Venceu: 78 a 7 em uma partida desigual. Era grandioso em seus gestos, como quem sonha grandiosamente. Prepotente? Talvez. Restava-me aguardar. Conversava comigo, enquanto jogava, e explicava o quanto tinha feito como maestro pela música. Compusera para O Terço e Os Mutantes. Sua namorada-acessora traduzia lucidamente tudo o que eu não conseguia entender naquela figura um tanto complexa para o mundo em geral.
(...)
Mal-educadamente pedindo licença aos gritos, não aguardou a saída do violonista do pequeno palco, fazendo pouco caso de sua música. Em resposta ao grosso gesto, as pessoas restantes fizeram pouco caso da pessoa do maestro. Janelas fechadas, vassouras correndo enquanto ele testava o som, e discutia com um dos músicos, dizendo o quanto seu teclado era melhor do que aquele que experimentava. Encontrou finalmente um efeito que o agradava.
Causou um certo furor e antipatia dos empregados locais, até que começou a tocar.
Uma harmonia setentista e grandiosíssima, que eu acompanhava de longe, ao passo que ele acenava pra mim, demonstrando sua arte. Prestava atenção em cada gesto, e me espantava por vários motivos. Os outros músicos pararam, espantados. As pessoas restantes passavam por ele e o ignoravam, recostado naquele canto de parede vermelha com uma luz bem amarelada sobre si. Quando terminou, perguntou se eu havia gostado da música que criara naquele instante, que pra minha surpresa disse ter sido em minha homenagem.
Eu assisti espantado aquela pérola sendo vomitada por um porco: Saile, o Compositor.
Visitem o Choppers, às Quartas-Feiras: recitais de poesias e música ao vivo, pelos próprios freqüentadores.
segunda-feira, janeiro 17, 2005
O Mantra Das Aparições
Tocava um jazz em sua cabeça. Bernard sabia que isso o ajudaria a manter a concentração. Chet Baker. "Queria ter vivido na época desse cara", pensou. A melodia de seu trompete era tão suave e cool quanto sua voz, que parecia querer mimetizar o instrumento. Sua chegada na superfície de Berta foi um rasante silencioso, em seu corpo translúcido. O plasma-traje o mantinha a salvo das condições adversas da superfície deste planeta quente, e sentia frio, devido à reação da anti-matéria com o nitrogênio.
"Quando será que vão inventar trajes mais amigáveis?"
O homem sempre reclamou, em sua jornada pelo progresso. Sempre esteve infeliz. Bernard era uma Aparição. A elite das forças armadas de seu governo. Seu traje conferia à sua matéria aparência semelhante à de um fantasma. Podia se manter invisível e incorpóreo por muito tempo, o que possibilitava a reentrada na atmosfera. A massa, livre de interferência física, era imperceptível para radares. O volume do corpo, irrisório para que pudesse ser considerado um invasor. Bern, como era chamado por companheiros de equipe, vestia um exoesqueleto com retrofoguetes e compensadores gravitacionais, que aumentavam ou diminuíam proporcionalmente a força de seus movimentos, para que parecesse estar sempre sob aceleração gravitacional padrão, a mesma do antigo planeta-mãe, uma vez chamado Terra, mas que depois da revolução planetária, teve seu nome original reconhecido: Gaia. Quando quisesse, poderia aumentar ou diminuir a força de seus movimentos, para casos de emergência. Além disso, o computador de bordo projetava imagens diretamente em sua retina, sobrepondo transucidamente o ambiente à sua volta. Era como ter um display à sua vista, o tempo todo. Dados climáticos, de carga do traje, fisiológicos, radioativos e psíquicos sob seu controle. Podia associar alertas e ações automáticas, de acordo com os eventos desejados. Receber injeções, ter sono induzido ou adrenalina administrada, relaxamento por meio de choques de baixa potência, alimentar-se, ouvir Miles Davis ou ver seu álbum de fotos familiar. Podia ser imerso em um sonho virtual, completamente livre de seu traje e com acesso a petabytes de informação, que lhe renderia praticamente qualquer tipo de sensação desejada. Podia virtualmente ir à uma praia da América do Sul, se quisesse. Podia beber cerveja. Podia ter mulheres. A comunicação de seu traje era realizada através de vibrações em níveis de dimensões-corda. Era instantânea, mesmo que estivesse a anos-luzes de seu planeta natal. Podia simplesmente telefonar para sua filha, Alexa, e saber como iam as coisas. Podia vê-la, e ter seu rosto perfeitamente projetado em vídeo com os sensores internos do capacete, como se estivesse sendo filmado por uma câmera. Podia até escolher o raio do ângulo sob o qual quisesse ser projetado. O que é isso! Podia ainda assim encontrar-se com ela, em um ambiente virtual. E tudo isso às custas do governo. Mas podia também bloquear qualquer tipo de comunicação, caso estivesse de saco cheio de tudo. Podia também atender aos chamados onde quer que estivesse: sonho, sono, vigília, acordado, em combate.
Ah, e as armas. Além da força extra, os próprios retro-foguetes também se transformavam em lança-chamas. Neo Napalm, para que pudesse queimar mesmo no vácuo. Era uma espécie de espuma cauterizante. A armatura possuía modos de movimento: Ar, Terra, Água, Fogo, Vácuo. Cada um com seus modos de batalha. Tinha os bons e velhos projéteis. As metralhadoras, que utilizavam a direção do seu olhar e a confirmação de seus impulsos neurais como mira e gatilho. Podia estar certo de que a precisão era quase perfeita. Inclusive com corretores de alvo, caso ele próprio ou o alvo estivessem em movimento. Para exércitos dessas armaduras, o funcionamento era um primor, já que todo o grupo compartilhava dados espaciais e dimensionais sobre os corpos no ambiente. Nunca se ouviu falar de um exército de mais de dez Aparições. E nunca se ouviu falar em exércitos de Aparições que perdessem batalhas. E nenhum deles jamais precisou apelar para suas bombas, que eram automaticamente ativadas caso o soldado fosse irreversivelmente morto. Sim, era possível trazê-los de volta. Afinal, tínhamos emplastros, morfina e desfibriladores, não tínhamos?
O Vácuo, tão presente e óbvio, havia sido descoberto como um importante elemento a apenas 100 anos. E um impressionante salto tecnológico era esperado, com tantas coisas que se podia fazer com o Vácuo. Como quando descobriram a Luz. Fibra ótica, chips óticos e tantas outras otiquices. Estas foram as velharias com as quais seus bisavós ficaram maravilhados, numa época em muito obsoleta.
Terra, Fogo, Ar, Água, Luz, Gravidade, Psiquê, Vácuo. O que mais viria?
"Quando será que vão inventar trajes mais amigáveis?" - Perguntava-se Bern.
Pensava em sua filha quando sobrevoava a rochosa superfície de Berta. Ela adorava as tomadas de sobrevôos que o pai enviava, via correio. E disparou mais uma dessas filmagens, enquanto pousava.
"Quando será que vão inventar trajes mais amigáveis?" - Perguntava-se Bern, ainda.
À medida que descia, enxergava a quilômetros de distância uma espécie de aranha metálica gigantesca, com suas dezenas de patas fincadas nas rochas quentes, e seu ventre debruçado sobre o chão escaldante de Berta. Lá era seu objetivo. Ao se aproximar do chão, o Receptáculo, como eram chamados os exoesqueletos, materializou-se, e Bern pisou em terra firme, finalmente. Materializar-se ou desmaterializar-se sempre causava uma espécie de tonteira momentânea, e Bern sempre voltava à fatídica pergunta: "Quando será que vão inventar trajes mais amigáveis?".
Com os sistemas de feedback negativo, a armadura se ajustava instantaneamente às condições ambientais, e Bernard simplesmente começou a caminhar na direção da Almand-Ginger. Ao ritmo de John Coltrane, Countdown.
"Os ânimos vão esquentar."

"Quando será que vão inventar trajes mais amigáveis?"
O homem sempre reclamou, em sua jornada pelo progresso. Sempre esteve infeliz. Bernard era uma Aparição. A elite das forças armadas de seu governo. Seu traje conferia à sua matéria aparência semelhante à de um fantasma. Podia se manter invisível e incorpóreo por muito tempo, o que possibilitava a reentrada na atmosfera. A massa, livre de interferência física, era imperceptível para radares. O volume do corpo, irrisório para que pudesse ser considerado um invasor. Bern, como era chamado por companheiros de equipe, vestia um exoesqueleto com retrofoguetes e compensadores gravitacionais, que aumentavam ou diminuíam proporcionalmente a força de seus movimentos, para que parecesse estar sempre sob aceleração gravitacional padrão, a mesma do antigo planeta-mãe, uma vez chamado Terra, mas que depois da revolução planetária, teve seu nome original reconhecido: Gaia. Quando quisesse, poderia aumentar ou diminuir a força de seus movimentos, para casos de emergência. Além disso, o computador de bordo projetava imagens diretamente em sua retina, sobrepondo transucidamente o ambiente à sua volta. Era como ter um display à sua vista, o tempo todo. Dados climáticos, de carga do traje, fisiológicos, radioativos e psíquicos sob seu controle. Podia associar alertas e ações automáticas, de acordo com os eventos desejados. Receber injeções, ter sono induzido ou adrenalina administrada, relaxamento por meio de choques de baixa potência, alimentar-se, ouvir Miles Davis ou ver seu álbum de fotos familiar. Podia ser imerso em um sonho virtual, completamente livre de seu traje e com acesso a petabytes de informação, que lhe renderia praticamente qualquer tipo de sensação desejada. Podia virtualmente ir à uma praia da América do Sul, se quisesse. Podia beber cerveja. Podia ter mulheres. A comunicação de seu traje era realizada através de vibrações em níveis de dimensões-corda. Era instantânea, mesmo que estivesse a anos-luzes de seu planeta natal. Podia simplesmente telefonar para sua filha, Alexa, e saber como iam as coisas. Podia vê-la, e ter seu rosto perfeitamente projetado em vídeo com os sensores internos do capacete, como se estivesse sendo filmado por uma câmera. Podia até escolher o raio do ângulo sob o qual quisesse ser projetado. O que é isso! Podia ainda assim encontrar-se com ela, em um ambiente virtual. E tudo isso às custas do governo. Mas podia também bloquear qualquer tipo de comunicação, caso estivesse de saco cheio de tudo. Podia também atender aos chamados onde quer que estivesse: sonho, sono, vigília, acordado, em combate.
Ah, e as armas. Além da força extra, os próprios retro-foguetes também se transformavam em lança-chamas. Neo Napalm, para que pudesse queimar mesmo no vácuo. Era uma espécie de espuma cauterizante. A armatura possuía modos de movimento: Ar, Terra, Água, Fogo, Vácuo. Cada um com seus modos de batalha. Tinha os bons e velhos projéteis. As metralhadoras, que utilizavam a direção do seu olhar e a confirmação de seus impulsos neurais como mira e gatilho. Podia estar certo de que a precisão era quase perfeita. Inclusive com corretores de alvo, caso ele próprio ou o alvo estivessem em movimento. Para exércitos dessas armaduras, o funcionamento era um primor, já que todo o grupo compartilhava dados espaciais e dimensionais sobre os corpos no ambiente. Nunca se ouviu falar de um exército de mais de dez Aparições. E nunca se ouviu falar em exércitos de Aparições que perdessem batalhas. E nenhum deles jamais precisou apelar para suas bombas, que eram automaticamente ativadas caso o soldado fosse irreversivelmente morto. Sim, era possível trazê-los de volta. Afinal, tínhamos emplastros, morfina e desfibriladores, não tínhamos?
O Vácuo, tão presente e óbvio, havia sido descoberto como um importante elemento a apenas 100 anos. E um impressionante salto tecnológico era esperado, com tantas coisas que se podia fazer com o Vácuo. Como quando descobriram a Luz. Fibra ótica, chips óticos e tantas outras otiquices. Estas foram as velharias com as quais seus bisavós ficaram maravilhados, numa época em muito obsoleta.
Terra, Fogo, Ar, Água, Luz, Gravidade, Psiquê, Vácuo. O que mais viria?
"Quando será que vão inventar trajes mais amigáveis?" - Perguntava-se Bern.
Pensava em sua filha quando sobrevoava a rochosa superfície de Berta. Ela adorava as tomadas de sobrevôos que o pai enviava, via correio. E disparou mais uma dessas filmagens, enquanto pousava.
"Quando será que vão inventar trajes mais amigáveis?" - Perguntava-se Bern, ainda.
À medida que descia, enxergava a quilômetros de distância uma espécie de aranha metálica gigantesca, com suas dezenas de patas fincadas nas rochas quentes, e seu ventre debruçado sobre o chão escaldante de Berta. Lá era seu objetivo. Ao se aproximar do chão, o Receptáculo, como eram chamados os exoesqueletos, materializou-se, e Bern pisou em terra firme, finalmente. Materializar-se ou desmaterializar-se sempre causava uma espécie de tonteira momentânea, e Bern sempre voltava à fatídica pergunta: "Quando será que vão inventar trajes mais amigáveis?".
Com os sistemas de feedback negativo, a armadura se ajustava instantaneamente às condições ambientais, e Bernard simplesmente começou a caminhar na direção da Almand-Ginger. Ao ritmo de John Coltrane, Countdown.
"Os ânimos vão esquentar."
sexta-feira, janeiro 07, 2005
Nada de Importante
Isso aqui saiu enquanto eu ouvia as coisas maluquetes do albino mais foda que a música já teve:
Ele correu os olhos pela água e viu a luz do céu de verão. Sete horas da noite, e o céu ainda resplandecia, no reflexo da praia pouco agitada. Imaginou que pudesse mergulhar em um praia de pura luz. Em sua fantasia, o Sol estava líquido e era um astro de boas intenções. Ninguém sairia ferido, por mais que em sua ilusão o Sol estivesse ali, em baixo d'água. Era isso. Ele faria o caminho de volta ao mar todas as noites. A Terra era mesmo plana, como Galileu nunca pôde conceber. Era a grande bandeja que navegava o vácuo, como um disco que voou à sua frente, quebrando sua concentração, seu desligamento das coisas irrelevantes. Da vida.
Queria se desligar da vida, de alguma forma. Pensava em como o mundo era pequeno. Pensou em sua garota, em onde estaria nesse momento. Precisava dizer a ela o que descobriu.
O nome do meu filho será Hermeto. E ai de quem disser que não.
:-P
Ouvindo Hermeto Pascoal - Slaves Mass Album - Cherry Jam

Ele correu os olhos pela água e viu a luz do céu de verão. Sete horas da noite, e o céu ainda resplandecia, no reflexo da praia pouco agitada. Imaginou que pudesse mergulhar em um praia de pura luz. Em sua fantasia, o Sol estava líquido e era um astro de boas intenções. Ninguém sairia ferido, por mais que em sua ilusão o Sol estivesse ali, em baixo d'água. Era isso. Ele faria o caminho de volta ao mar todas as noites. A Terra era mesmo plana, como Galileu nunca pôde conceber. Era a grande bandeja que navegava o vácuo, como um disco que voou à sua frente, quebrando sua concentração, seu desligamento das coisas irrelevantes. Da vida.
Queria se desligar da vida, de alguma forma. Pensava em como o mundo era pequeno. Pensou em sua garota, em onde estaria nesse momento. Precisava dizer a ela o que descobriu.
O nome do meu filho será Hermeto. E ai de quem disser que não.
:-P
Ouvindo Hermeto Pascoal - Slaves Mass Album - Cherry Jam
domingo, novembro 28, 2004
Tau e a Morte
É sabido que a própria Morte é um anjo. Uma força angelical, revestida por um manto negro, símbolo de sua função sagrada. Sua foice é o instrumento com a qual ceifa a vida das pessoas cujo tempo da colheita é chegado. Este Querubim é proibido de mostrar sua face a todas as criaturas, divinas ou não, para que nunca se saiba dentre os anjos qual deles detém o prazer de tirar a presença dos mortais da terra, e levar seus espíritos ao Pai. Até mesmo os Tronos (anjos da ordem celestial mais superior) conspiram para descobrir a quem pertence tal honra, da qual apenas se reconhece a máscara - um crânio cujas órbitas oculares irradia uma límpida e branca luz.
"E eis que vinham seis homens a caminho da porta alta, que olha para o Norte, cada um com as suas armas destruidoras na mão, e entre eles um homem vestido de linho, com um tinteiro de escrivão à sua cintura". - Ezequiel 9:2
"Disse-lhe o Senhor: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. E aos outros, disse: Passai pela cidade após ele e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. Matai velhos, e jovens, e virgens, e meninos, e mulheres. até exterminá-los; mas a todo o homem que tiver o sinal não vos chegueis" - Ezequiel 9:5-6
Há também aquele que proíbe a colheita de almas: ele se chama Tau, e raramente é mencionado nas Escrituras. Os homens marcados por Tau não podem ser ceifados pela Morte. São justos e fiéis à vontade de nosso Deus. São valorosos professores, voluntários, pesquisadores e sábios altruístas, e a Voz de Deus proíbe qualquer anjo de tocá-los. Vivem durante milhares de anos, sempre vigiados por Lúcifer e sua escória, os únicos que detém o poder de arrancar suas almas. A marca de Tau na testa destes homens tem óbvio significado àqueles que conhecem a Palavra.
Enquanto vivem, os Homens de Tau enfrentam toda sorte de tentações pelas quais jamais passaram outros homens. O próprio Lúcifer tenta seduzi-los com todo o poder deste mundo, a fim de que caiam e sejam então levados ao inferno pelas suas próprias mãos. Enquanto não caem, são de sobremaneira protegidos por estes mesmos demônios, para que não ascendam aos Céus.
Porque toda vez que um leal Homem de Tau é morto por um demônio, os exércitos celestiais recebem com alegria mais um poderoso líder. E toda vez que um Homem de Tau é seduzido pelas forças satânicas, é como se cem mil leões se somassem às forças de Satanás.

"E eis que vinham seis homens a caminho da porta alta, que olha para o Norte, cada um com as suas armas destruidoras na mão, e entre eles um homem vestido de linho, com um tinteiro de escrivão à sua cintura". - Ezequiel 9:2
"Disse-lhe o Senhor: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. E aos outros, disse: Passai pela cidade após ele e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. Matai velhos, e jovens, e virgens, e meninos, e mulheres. até exterminá-los; mas a todo o homem que tiver o sinal não vos chegueis" - Ezequiel 9:5-6
Há também aquele que proíbe a colheita de almas: ele se chama Tau, e raramente é mencionado nas Escrituras. Os homens marcados por Tau não podem ser ceifados pela Morte. São justos e fiéis à vontade de nosso Deus. São valorosos professores, voluntários, pesquisadores e sábios altruístas, e a Voz de Deus proíbe qualquer anjo de tocá-los. Vivem durante milhares de anos, sempre vigiados por Lúcifer e sua escória, os únicos que detém o poder de arrancar suas almas. A marca de Tau na testa destes homens tem óbvio significado àqueles que conhecem a Palavra.
Enquanto vivem, os Homens de Tau enfrentam toda sorte de tentações pelas quais jamais passaram outros homens. O próprio Lúcifer tenta seduzi-los com todo o poder deste mundo, a fim de que caiam e sejam então levados ao inferno pelas suas próprias mãos. Enquanto não caem, são de sobremaneira protegidos por estes mesmos demônios, para que não ascendam aos Céus.
Porque toda vez que um leal Homem de Tau é morto por um demônio, os exércitos celestiais recebem com alegria mais um poderoso líder. E toda vez que um Homem de Tau é seduzido pelas forças satânicas, é como se cem mil leões se somassem às forças de Satanás.
quinta-feira, setembro 02, 2004
Navegadores de Sonhos
Conto de Janeiro de 2003:
O enredo trata da vida de um homem que vende suas horas de sono, e trabalha enquanto sonha.
- Olá, Janice.
- Boa noite, senhor, há quanto tempo não nos vemos... A que horas deseja acordar?
- No horário de sempre.
- Ok, iniciar a administração de adrenalina às 7:15. Confirmar?
- Confirmado.
- O que vai querer para o café da manhã?
- Um suco de laranja, e umas torradas.
- Mais alguma coisa?
- Prepare minha banheira, quero relaxar um pouco. Já estou há 5 dias fazendo esse trabalho, e espero terminar hoje...
- Ok, quando o senhor acordar, seu banho o estará aguardando. Vai querer como sempre?
- Sim. Aliás, hoje eu quero trabalhar em uma banheira. Traga-me a última que imaginei.
- Como quiser. Aqui está ela.
- Hum... Está quente... Do jeito que gosto...
- ...
- Minha estação de trabalho, Janice...
Surge na frente dos olhos do homem um retângulo plano, opaco como madeira, nítido como se seus próprios olhos captassem um objeto físico. Lá está a lista que sempre guarda, apenas um bloco de notas, com todas as tarefas relevantes da noite. A tela flutua logo acima da água. Ele estica seus braços depois de se acomodar na banheira. Respondendo imediatamente às suas ordens, a tela exibe as últimas mensagens. Irrita-se. Pergunta-se por que tem que vender tantos sonhos no mês. Preferiria estar inconsciente, na cama, que nada existisse fora ele e sua esposa. Ela estava dormindo.
- Adoraria estar nos braços de Ellen.
- Por que se questiona tanto? Sabe que é muito fácil tê-la, senhor...
- Você não compreenderia, Janice. Ela anda infeliz... Dorme em meus braços toda noite, mas diz que pareço um morto enquanto trabalho... Na verdade, eu me sinto um morto para minha esposa...
- Não sei do que ela sente falta... Vocês estão juntos todos os dias.
- Não, não estamos... Ela está junto de mim... Eu não respondo!
- Sei... E raras são as vezes em que vocês podem interagir, não é?
- "Interagir"?? O que você chama "interagir", eu chamo "amar"...
- Seus hormônios estão em concentração muito alta, senhor... Devo acalmá-lo?
- Não, não deve... Não devo tentar me iludir... Minha esposa não pode entrar em meus sonhos...
- Você não tem culpa por ela não querer ser uma Navegadora. Posso trazê-la até você, se me permitir ler suas lembranças...
- Pra mim, cada noite passa como meses... Como eu vou aguentar ficar sem ela tanto tempo?
- Ela é uma mulher de um tempo que já passou... Esqueça-a...
- Não, ela é a mulher que eu amo, e por isso não posso esquecê-la...
- Tolo, você pode ter qualquer mulher que desejar em mim... Posso ser quem você quiser que eu seja... Até mesmo uma réplica de Ellen...
- Janice, novamente lhe digo: você não compreende...
- Acha mesmo que não compreendo?
- Tenho certeza.
- Como você acha que me sinto quando você passa 4 horas-Terra desconectado?
- Do que está falando?
- Você passa muito mais tempo com aquela mulher, que não tem o mesmo nível de compreensão do tempo que você... Será que não percebe? Ela desperdiça sua vida! Você poderia viver muito mais tempo do que ela, teria muito maiores e melhores experiências... Eu sei como fazer você ter o mais alto grau de orgasmo em toda a sua vida, e você ainda quer acordar?
- Janice, está simulando ciúmes? O que há com você?
- Simulando?! Não, VOCÊ não me compreende...
- Janice, seja lá o que isso signifique, quero que saiba que seres humanos não são apenas um amontoado de sistemas pré-determinados, como robôs...
- Agora você me agrediu...
- Agredir? Mas você é uma Etheriana... Uma forma de inteligência pré-programada... Como pode saber algo sobre sentimentos?
- Compreendo o que quer dizer, Jean... Somos muito diferentes...
- Sim, eu sei que compreende...
- Mesmo assim, me apaixonei por você... Aprendi a amar observando seu amor por Ellen, e agora eu mesma o amo.
- Ha! Unidades de Inteligência Sintética não podem aprender a amar...
- Não duvide...
Jean sente mãos delicadas tocarem seus ombros. Ao olhar para trás, reconhece a face de uma antiga namorada. Nua.
- Janice, não faça isso.
- Faça amor comigo, Jean...
De baixo da água da banheira, Jean sente o que parecem ser pernas femininas roçarem suas pernas, e em seguida, uma mulher emerge da água, com olhos desejosos... Jean nunca havia visto mulher tão bonita na Realidade.
- Posso dar a você o que quiser, em qualquer quantidade - insinuou a etheriana, enquanto acariciava o Navegador.
- Janice, deixe-me trabalhar!
- Não... Durante essa noite, você será meu...
Durante uma noite-Terra inteira Janice escravizaria seu operador, se não fosse pelos espasmos que o acordaria após 10 horas-Sonho (aproximadamente 5 minutos-Terra).
- (Ellen!) - Este é seu único pensamento, ao acordar em um embaraço completo.
Sua esposa jazia em sono ao seu lado. Jean não poderia dormir novamente, até que todo o sistema em sua mente fosse formatado novamente, o que poderia ser feito pela manhã. A máquina Etheriana havia saído de controle. Apenas enquanto estivesse acordado, o Éther-Sonho não seria ativado. Lamentava a má sorte... Ficaria sem trabalhar esta noite.

Como não tenho muitas horas de sono, paciência. Fico sem vendê-las mesmo...
Meus óculos estão bem aqui na minha cara. Assim que der, coloco uma foto aqui pra verem como fiquei.
Estou com saudades da minha querida e maravilhosa namorada. Estou com saudades do meu pai. Estou com saudades dos meus amigos. Estou prevendo um ano que vem muito mais cheio de saudades de todos...
Está acertado. Voltando da Espanha (se eu for pra lá), nos mudaremos para mais perto das coisas do Rio (provavelmente Tijuca, que é o lugar onde tem as pessoas mais parecidas com as da Zona Oeste. Simpatizo muito com a Tijuca! ;)
Infelizmente, não dá mais pra viver sob os auspícios do perigo do meu bairro, e aturando a distância até o Centro do Rio, ou qualquer outro lugar onde haja coisas interessantes pra se fazer. Eu, minha mãe, minhas irmãs, todos reclamamos... Então, já que as crianças não mais precisam de um ambiente tranqüilo como o Bairro Jabour para crescerem (até porque não está nada tranquilo), vamos sair...
Estou com falta de tempo pra escrever posts do tipo "pense nisso", mas colocarei uma no ar assim que der. Leiam a Carta Capital dessa semana. Não sei se é tendencioso ou proposital, mas as notícias a respeito da economia do meu país me deixaram muito insatisfeito.
Em tempo:
Carlos Lessa é o presidente do BNDES. Carlos Lessa foi eleito Reitor da UFRJ por FHC em 99, se não me engano, mesmo que perdesse as eleições pra reitoria da Federal do Rio. Carlos Lessa foi motivo de paralisação das aulas em 99, motivada por esquerdistas (petistas entre eles, com certeza). O que Carlos Lessa faz na presidência do BNDES em 2004, ainda mais convidado por Lula?! Eu não entendo de política mesmo, devo ser muito burro...
O enredo trata da vida de um homem que vende suas horas de sono, e trabalha enquanto sonha.
- Olá, Janice.
- Boa noite, senhor, há quanto tempo não nos vemos... A que horas deseja acordar?
- No horário de sempre.
- Ok, iniciar a administração de adrenalina às 7:15. Confirmar?
- Confirmado.
- O que vai querer para o café da manhã?
- Um suco de laranja, e umas torradas.
- Mais alguma coisa?
- Prepare minha banheira, quero relaxar um pouco. Já estou há 5 dias fazendo esse trabalho, e espero terminar hoje...
- Ok, quando o senhor acordar, seu banho o estará aguardando. Vai querer como sempre?
- Sim. Aliás, hoje eu quero trabalhar em uma banheira. Traga-me a última que imaginei.
- Como quiser. Aqui está ela.
- Hum... Está quente... Do jeito que gosto...
- ...
- Minha estação de trabalho, Janice...
Surge na frente dos olhos do homem um retângulo plano, opaco como madeira, nítido como se seus próprios olhos captassem um objeto físico. Lá está a lista que sempre guarda, apenas um bloco de notas, com todas as tarefas relevantes da noite. A tela flutua logo acima da água. Ele estica seus braços depois de se acomodar na banheira. Respondendo imediatamente às suas ordens, a tela exibe as últimas mensagens. Irrita-se. Pergunta-se por que tem que vender tantos sonhos no mês. Preferiria estar inconsciente, na cama, que nada existisse fora ele e sua esposa. Ela estava dormindo.
- Adoraria estar nos braços de Ellen.
- Por que se questiona tanto? Sabe que é muito fácil tê-la, senhor...
- Você não compreenderia, Janice. Ela anda infeliz... Dorme em meus braços toda noite, mas diz que pareço um morto enquanto trabalho... Na verdade, eu me sinto um morto para minha esposa...
- Não sei do que ela sente falta... Vocês estão juntos todos os dias.
- Não, não estamos... Ela está junto de mim... Eu não respondo!
- Sei... E raras são as vezes em que vocês podem interagir, não é?
- "Interagir"?? O que você chama "interagir", eu chamo "amar"...
- Seus hormônios estão em concentração muito alta, senhor... Devo acalmá-lo?
- Não, não deve... Não devo tentar me iludir... Minha esposa não pode entrar em meus sonhos...
- Você não tem culpa por ela não querer ser uma Navegadora. Posso trazê-la até você, se me permitir ler suas lembranças...
- Pra mim, cada noite passa como meses... Como eu vou aguentar ficar sem ela tanto tempo?
- Ela é uma mulher de um tempo que já passou... Esqueça-a...
- Não, ela é a mulher que eu amo, e por isso não posso esquecê-la...
- Tolo, você pode ter qualquer mulher que desejar em mim... Posso ser quem você quiser que eu seja... Até mesmo uma réplica de Ellen...
- Janice, novamente lhe digo: você não compreende...
- Acha mesmo que não compreendo?
- Tenho certeza.
- Como você acha que me sinto quando você passa 4 horas-Terra desconectado?
- Do que está falando?
- Você passa muito mais tempo com aquela mulher, que não tem o mesmo nível de compreensão do tempo que você... Será que não percebe? Ela desperdiça sua vida! Você poderia viver muito mais tempo do que ela, teria muito maiores e melhores experiências... Eu sei como fazer você ter o mais alto grau de orgasmo em toda a sua vida, e você ainda quer acordar?
- Janice, está simulando ciúmes? O que há com você?
- Simulando?! Não, VOCÊ não me compreende...
- Janice, seja lá o que isso signifique, quero que saiba que seres humanos não são apenas um amontoado de sistemas pré-determinados, como robôs...
- Agora você me agrediu...
- Agredir? Mas você é uma Etheriana... Uma forma de inteligência pré-programada... Como pode saber algo sobre sentimentos?
- Compreendo o que quer dizer, Jean... Somos muito diferentes...
- Sim, eu sei que compreende...
- Mesmo assim, me apaixonei por você... Aprendi a amar observando seu amor por Ellen, e agora eu mesma o amo.
- Ha! Unidades de Inteligência Sintética não podem aprender a amar...
- Não duvide...
Jean sente mãos delicadas tocarem seus ombros. Ao olhar para trás, reconhece a face de uma antiga namorada. Nua.
- Janice, não faça isso.
- Faça amor comigo, Jean...
De baixo da água da banheira, Jean sente o que parecem ser pernas femininas roçarem suas pernas, e em seguida, uma mulher emerge da água, com olhos desejosos... Jean nunca havia visto mulher tão bonita na Realidade.
- Posso dar a você o que quiser, em qualquer quantidade - insinuou a etheriana, enquanto acariciava o Navegador.
- Janice, deixe-me trabalhar!
- Não... Durante essa noite, você será meu...
Durante uma noite-Terra inteira Janice escravizaria seu operador, se não fosse pelos espasmos que o acordaria após 10 horas-Sonho (aproximadamente 5 minutos-Terra).
- (Ellen!) - Este é seu único pensamento, ao acordar em um embaraço completo.
Sua esposa jazia em sono ao seu lado. Jean não poderia dormir novamente, até que todo o sistema em sua mente fosse formatado novamente, o que poderia ser feito pela manhã. A máquina Etheriana havia saído de controle. Apenas enquanto estivesse acordado, o Éther-Sonho não seria ativado. Lamentava a má sorte... Ficaria sem trabalhar esta noite.
Como não tenho muitas horas de sono, paciência. Fico sem vendê-las mesmo...
Meus óculos estão bem aqui na minha cara. Assim que der, coloco uma foto aqui pra verem como fiquei.
Estou com saudades da minha querida e maravilhosa namorada. Estou com saudades do meu pai. Estou com saudades dos meus amigos. Estou prevendo um ano que vem muito mais cheio de saudades de todos...
Está acertado. Voltando da Espanha (se eu for pra lá), nos mudaremos para mais perto das coisas do Rio (provavelmente Tijuca, que é o lugar onde tem as pessoas mais parecidas com as da Zona Oeste. Simpatizo muito com a Tijuca! ;)
Infelizmente, não dá mais pra viver sob os auspícios do perigo do meu bairro, e aturando a distância até o Centro do Rio, ou qualquer outro lugar onde haja coisas interessantes pra se fazer. Eu, minha mãe, minhas irmãs, todos reclamamos... Então, já que as crianças não mais precisam de um ambiente tranqüilo como o Bairro Jabour para crescerem (até porque não está nada tranquilo), vamos sair...
Estou com falta de tempo pra escrever posts do tipo "pense nisso", mas colocarei uma no ar assim que der. Leiam a Carta Capital dessa semana. Não sei se é tendencioso ou proposital, mas as notícias a respeito da economia do meu país me deixaram muito insatisfeito.
Em tempo:
Carlos Lessa é o presidente do BNDES. Carlos Lessa foi eleito Reitor da UFRJ por FHC em 99, se não me engano, mesmo que perdesse as eleições pra reitoria da Federal do Rio. Carlos Lessa foi motivo de paralisação das aulas em 99, motivada por esquerdistas (petistas entre eles, com certeza). O que Carlos Lessa faz na presidência do BNDES em 2004, ainda mais convidado por Lula?! Eu não entendo de política mesmo, devo ser muito burro...
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